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Publicado em: 15/02/2010 |
De novo, Abraxas.
Qual é a cara de Pedro Malasartes? Discordo da imagem jovem, cabeluda e bigoduda em calças cáqui marrom e camisa rota, aberta e alaranjada. Samba Lelê tinha, sim, uma cabeça alaranjada, harmônica com a forma engrandecida e achatada nas extremidades
, mais ainda do que o globo terrestre, a lembrar uma abóbora, não importa o que dizem as boas, as más, as outras línguas. Dom Quixote
, bem lembrado, viveu em um mundo de inimigos gigantescos e desafiadores a guerrear, onde não existiam moinhos. Que sejam os moinhos de quem os queira. Há que se aceitar, enfim, que a realidade é parcial, pessoal e intransferível, até certo ponto (e há chão até essa barreira), e por isso existimos
.
Sobre o que ele diz do mundo sabemos do sujeito, e assim sabem de nós esses sujeitinhos alheios
. Existimos assim, afinal, espalhados
no que vemos, até o dia em que morrermos – essa é a parte que nos cabe deste latifúndio, e chega.
Assim foi que Abraxas habitou em Borges, na Seita dos Trinta, página 53 do livro de areia (em sua primeira reimpressão pela companhia das letras, em 2009), com a cabeça de galo, braços e torso de homem e a extremidade por uma serpente enroscada, e foi para Sinclair, concebido por Herman Hesse
em Demian, o amor a que ansiava e temia e que reunia, delicioso em si, o sagrado e a profanação, numa completude impossível a concepções morais, radicalismos ou maniqueísmo e teve, certamente, tantas outras identidades quanto conhecedores houveram da divindade. Eis que realidade viva é isso: apropriação e reatualização de patrimônio coletivo, visto que só existe o real a medida em que lhe conferimos sentido e que a imaginação e o sensorial do indivíduo, bem como todos os outros movimentos intrínsecos do humano vivente que se vinculam à sua psique, apreendem e constituem o derredor com um sentido particular, sempre nunca visto, ainda que inspirado e acolhido pelo consenso coletivo.
Quem conta um conto aumenta um ponto, porque é humano, desde o homem primitivo
.
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