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Amor a Toda Prova
Da representação de papéis à crise de identidade.
Guilherme.
Publicado em: 29/08/2011

Há méritos no roteiro deste Amor a Toda Prova que são maiores do que o resultado em si. Sim, este é um filme envolvente, bem dirigido e com bons diálogos; mas que parece se perder no último ato de uma forma quase irreparável e vergonhosa. E nesse sentido cabem as críticas correntes de que o filme não consegue unificar seu discurso entre tantos personagens diferentes - aliás, estamos mesmo falando de amor, como sugere o título? Pois, o retrato que se faz destes personagens parece dizer mais sobre regras, acordos, práticas e hábitos sociais (especificamente: os rituais de conquista) do que sobre amor. O que fica como provocação após o final do filme nada tem a ver com o "lutar pela sua alma gêmea"; o que sugere que a abordagem do longa diz mais mesmo sobre a relação entre Cal (Carell) e Jacob (Gosling) - os dois perdidos, cada um a sua maneira, que juntos irão aprender, um com o outro, a reviver suas qualidades e recuperar seus relacionamentos afetivos.

Por essa leitura, o filme tem ótimas sacadas, principalmente na maneira irônica e sarcástica como retrata o universo masculino - superando assim o clichê inerente à proposta. O que não se justifica, porém, é o conflito de representações que se estabelece entre eles ao longo da história: de que Jacob pode ser tudo o que Cal queria ser, torna-se seu melhor amigo, mas que é inaceitável como uma pessoa mais próxima da sua família. Que hipocrisia é essa? Que valores humanos são esses? Que maldita sociedade é essa, feita de papéis desempenhados e representações mesquinhas? O incômodo com este terceiro ato - após a surpresa de Cal na casa de Emily (Moore) - é conflituoso; por mais que não concorde com os rumos da história no final, é inegável a provocação que o filme deixa - se não necessariamente questiona essa hipocrisia masculina, pelo menos evidencia o seu funcionamento e sua aplicação. E há mérito nisso sim, já que o filme faz pensar sobre as atitudes de Cal e Jacob, em seus atos covardes e egóicos, e em como podemos reconhecer esses rituais em nosso cotidiano. Mas será que o filme tinha isso como propósito? Parece que não; o filme é uma coletânea irregular de histórias - tem seu charme, tem seu humor, mas termina em crise de identidade.

Amor a Toda Prova 
(Crazy, Stupid, Love., EUA, 2011)
Direção: Glenn Ficarra e John Requa.
Elenco: Steve Carell, Ryan Gosling, Julianne Moore, Emma Stone, Marisa Tomei, John Carroll Lynch, Kevin Bacon, Liza Lapira e Josh Groban.
Duração: 118 min.

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