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Análise combinatória: a aplicabilidade da matemática em Harry Potter, um bicho de sete cabeças, e um telefonema para Hermione
Carolina.
Publicado em: 15/07/2009

Quatro anos depois de acontecido tive conhecimento do telefonema. Digo, da tentativa; cresceu lendo Harry Potter, como muitos.

Em sua singularidade de indivíduo a constituir-se, tratou de experimentar, aos 9 anos, após a leitura do 3º livro da série, todas as combinações numéricas possíveis – até-cansar – para formar um número correto de telefone.

O objetivo era um colóquio com a Srta. Hermione Granger, supostamente a residir em Londres; a intenção do contato era pedir emprestado um preciosíssimo objeto: O VIRA TEMPO, utilizado no enredo número três para salvar um hipogrifo e um controverso e admirável padrinho, possibilitaria a qualquer um adiantar-se ou retroceder na linha do Inexorável, alterando fatos idos ou fatídicos, sabendo o susto de antemão e redesenhando por cima do previsto – nenhuma novidade aí, para Michael J. Fox e Christopher Lloyd, entre muitos.

Telefonema interdito levou a fiel leitora e seus cúmplices de plano a conformarem-se com a longa e linear espera do veredicto: afinal, era preciso aguardar até os onze anos para se saber um dos escolhidos – ou não.

Veredicto bem sucedido restaria seguir para Hogwarts, a Escola-Desejo, ouvir do chapéu seletor sua locação e caráter e iniciar o ano letivo, que parecia assim tão açucarado a este olhar ávido por outras razões além da companhia: ter em seu currículo escolar as disciplinas mágicas que ofereceriam utilização direta no dia-a-dia, utilização essa bem simpática aos anseios do imaginário infantil que, no fundo, acompanha os passantes por toda a vida; ter escadas que mudam de lugar possibilitando uma descoberta diária de algo novo, surpreendente, inesperado; ter até à disposição de explicações escolares, uma Floresta Proibida... (não queríamos todos?) E, assim, reorganizar a lida.

Aconteceu que, como inevitável, chegou o dia... E nenhuma carta convocando para matrícula.

Sonho morto, de autoridade superior a qualquer autarquia, se reatualiza.

E me diz então que a leitura ainda valia:

Refluxo - O que mudou da sua primeira impressão com Harry Potter para hoje em dia?

Luiza Tavares - Eu acreditava em Harry Potter, acreditava que existia, mas hoje continuo gostando igual.

Refluxo - O que fez com que deixasse de acreditar que existia – e ainda continuar gostando?

Luiza Tavares - Foi no dia 1° de setembro em que eu achei que ia receber a carta para estudar em Hogwarts, então eu ia o dia todo até a carta do correio, mas a carta não veio. Foi triste.

Refluxo - O que você pensou?

Luiza Tavares - Pensei ou eu sou "trouxa", ou não existe.

Refluxo - Por que você ficou triste?

Luiza Tavares - Porque eu queria ir para Hogwarts.

Refluxo - Por que você não deixou de gostar ao descobrir que não existia?

Luiza Tavares - Porque de certa forma existe. Dentro dos livros isso existe.

Refluxo - Qual a vantagem de existir dentro dos livros?

Luiza Tavares - Porque eu sinto como se não fosse a única estranha no mundo.

Refluxo - Por que?

Luiza Tavares - Porque tem outros estranhos no livro.

Refluxo - Por que lhe dá essa sensação de que eles são estranhos, de que você é estranha?

Luiza Tavares - Eles não estão dentro do círculo que a sociedade chama de normais.

Refluxo - E hoje em dia que você não espera que chegue mais nenhuma carta, ou conseguir falar com a Hermione, qual o seu prazer ao ler um dos livros ou ver um dos filmes?

Luiza Tavares - Eu me lembro de quando era pequena. Eu gosto da expectativa do Harry, eu espero com ele pelas provas, eu quase estudo com a Hermione.

Na submersão dessa ânsia de valorizar um padrão como um ideal a ser atingido, aonde supostamente reside um valor superior para o qual nos aponta tudo que se sugere ser consumido, somos, de repente, todos estranhos constrangidos? Que dizer do irrepreensível Snape na sinceridade cáustica de sua imagem que identifica o não-quisto? E que arrebanha adultos a rir do mundo de J.K. Rowlling na imagem de Gregory House a agredir os bons costumes e gritar as vantagens do autismo? Então ao conforto da solidão humana resta apenas, e ainda, o “amigo invisível”?

A despeito de toda a discussão, absurdos e bombardeio crítico – sem excluir deste a pertinência – sobre os horrores conspiratórios de uma bruxaria que pretende desconstituir a integridade humana e subverter a religião e suas benfeitorias, sobre o caráter comercial suplantando o valor de uma “boa literatura”, sobre iscas e vísceras, o que me surpreende - também aqui - é sempre e ainda o humano: o vínculo particular e subjetivo, o individual e afetivo, tão precioso e que se condena, me parece às vezes, ao ostracismo, sob o bombardeio de boas intenções, de uma sociedade imagética, de status, de consumismo, de páginas e páginas de um massificante jornalístico.

E de todas as perguntas que me povoam, enquanto ouço se erguer, sobre todas as coisas (supracitadas também), a voz do individuo, uma me ecoa, soberana: o que Hermione teria dito?

Refluxo - Por que aulas de magia são mais legais?

Luiza Tavares - Porque eu poderia resolver meus problemas com elas.

O que a aplicabilidade das combinações matemáticas utilizadas ao telefone deixa a desejar para a mágica indeferida? Estaremos todos frustrados com uma vida ausente de mitos? Onde nos faltou o direito de utilizar o apreendido, ou a explicação do que faremos com isso?

Refluxo - E depois que acabar a saga de Harry Potter?

Luiza Tavares - Tem DVD e livro para isso, para poder rever e reler.

Perde-se a singularidade do evento, característica da sessão de teatro ou cinema, e ganha-se um enriquecimento na atualização constante do DVD revisto? O que há de mecânico, e o que há de mágica possível, a ser utilizada, nisso?

Refluxo - Por que o telefone era para Hermione?

Luiza Tavares - Porque ela era "Trouxa" e tinha telefone, e se eu ligasse pro Harry o Tio Valter ia querer "me matar".



Grifinória em Luiza Tavares

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