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Da apropriação e sua impossibilidade
Perda e identidade de um símbolo escravizado.
Carolina.
Publicado em: 15/05/2010

Em frente ao palácio real da cidade de Jaipur, no Rajastão, um casal aproxima-se para pose fotográfica. No fundo, o palácio ostenta, tímido, ilícito, um rabisco discreto em uma parede externa. Logo em frente, o desenho rabiscado atravessa a rua imponente, rubro, impregnado no capô de um carro. E mais outro. E na moto que desponta na curva.

Agregado à parede do palácio a lápis, passa despercebido – ao contrário de seus duplos desfilando pelas ruas – enquanto suplanta, em sua infinita antiguidade, as igualmente muitas décadas do edifício.

Representa, em sua simplicidade, o mundo e suas razões, sua origem, seu sentido sagrado, num minimalismo de traços surpreendente. Além de representar, evoca, e evocando abençoa, com boa sorte e prosperidade, e, por isso é, sempre, bem-vindo, e reverenciado, e requisitado no campo de visão.

Não surpreende, pois é da ordem do familiar e do constante, mas endossa, sempre e toda vez, uma mesma e única mensagem sobre a origem sagrada, eterna e imutável de um mundo em constante transformação.

Pulsando nos traços documentados e reconhecidos da humanidade desde cerca de três mil anos antes de cristo, e tendo por excelência lugar indiscutível na sacralidade, fosse observado em qualquer um dos muitos povos que dele se utilizaram – muitos sem evidência nenhuma de contatos que justificassem a presença da mesma representação em civilizações diversas – é, já em idade avançada, tomado à força como ancoradouro visual de uma proposta que não era a sua .

Torna-se, enfim, existente e persuasivo para o Ocidente, e sinônimo de extermínio, ódio anti-semita, preconceito e ignorância . Movimento apoteótico-apocalíptico findo, mantém-se conhecido como tal, do lado de cá, e desprende, em um ou outro braço tatuado pela ignorância do portador, uma fagulha do sentido que lhe concedeu a varinha de condão nazista.

Sessenta e cinco anos após o indesejado apadrinhamento de um austríaco insano, a família permanece unida e, pelo menos em casa, a suástica permanece incensurável; diante da eternidade sagrada que origina o mundo de natureza eternamente mutável, seis décadas de distorções conceituais não significam nada.

Fora da Índia e seus outros parentes, a suástica desperta a compaixão de ocidentais ansiosos por respeitar - e até defender - origens históricas e culturais. Que comemoram ao ver o resgate da imagem em expressões da cultura pop, inclusive em forma de pingentes pendurados nos pescoços de adolescentes ocidentais que optam pelo símbolo de estética aprazível – que, além disto, não significa, ali, nada além de nada .


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