Neil Gaiman entre nós. |
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Publicado em: 15/09/2009 |
Um meio; um terço; dois terços. Quantidades aproximadas usadas para se referir ao tempo de vida em que passamos dormindo que já vi defendidas como fisiologicamente saudáveis e rechaçadas como desperdício. Há que se dizer que há mais no dormir do que repouso, fato que não sei se está considerado no acolhimento ou reprovação supracitados; aberta a porta para o espaço do não tempo ao cair das pestanas, não há senão que impeça o que quer que seja de vir visitar o passante desavisado. Ou de ser visitado
. Há de ser validado o temor dos que resistem, angustiados, no beiral da porta, e afastam- se dela aos sobressaltos enquanto durar o fôlego, fazendo a mesma associação que faz o príncipe dinamarquês a que se atribuem as linhas mais famosas de um dilema humanizado, quando relaciona a morte ao sono – e teme o que se encontra do outro lado
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Prós e contras já estamentados, resta pontuar, com uma interrogação, a razão pela qual tantos visitantes e visitados, anônimos e particulares, mundiais e conhecidos foram, em nosso circuito contemporâneo à esquerda no globo, banidos como persona non grata para as esferas do sem-fim, quase que exclusivamente, sem direito à estender seu espaço de trânsito
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Longe de ser insuficiente ou pouco adequado o espaço sem fronteiras emancipado de Cronos em que habitam, a relevância da questão reside apenas na aridez que talvez ocupe os espaços antes compartidos com os atravessadores do portal, nos olhos abertos para os deuses no mar, na terra e no céu da Grécia Antiga, do Egito, do folclore afro, brasileiro, inconsciente ou estrangeiro
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Há, talvez, que se clamar por mais alguns viajantes em resgate; afinal, em um universo de civilidade em que a (excessiva) lucidez é supervalorizada e identifica-se aqui com uma lógica sempre linear, uma pró-atividade rasa e behaviorista e uma superficial praticidade que funciona às custas de decepar os dedos de qualquer desvio criativo ou reflexão/ fruição mais longa e não planejada que se identifique fora do padrão
– visto que a identificação com o padrão é a referência de qualidade, a completude do sujeito encontra-se ameaçada; é necessário ter o direito e a liberdade de enxergar algo além no que se vê, no dia-a-dia mesmo, não apenas a portas fechadas; há que se ter espaço para os desdobramentos do sujeito, que assim e por isso se define como tal.
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É em salvação dessa possibilidade e por conta dela que Neil Gaiman, esse Mestre dos Magos que transita entre roteiros, quadrinhos e romances nos é tão necessário, devolvendo ao mundo a costura entre a superfície e seu avesso – que carecem de existência e sentido em separado. Graças ao green card que lhe confere trânsito livre entre o (a)real e o onírico, Neil Gaiman contrabandeia, generoso, elementos do abandonado para o contemporâneo, redevolvendo à vida seus entremeios; seja estendendo Londres a um universo paralelo que corre no subterrâneo como o leito de um rio (Neverwhere), seja mostrando que os contos de fadas ainda valem e andam de mãos dadas com o medo e com a docilidade em uma narrativa para públicos mais do que abrangentes (Coraline), atestando que a mitologia está viva e muito bem, obrigada, residindo tranquilamente entre a tecnologia e a assepsia intelectual da atualidade (Deuses Americanos; Sandman; Stardust), Neil Gaiman é o diálogo constante entre o concreto, o simbólico e o imaginário, e prova que nisto é um virtuose que deixa suas próprias marcas; seus personagens mais queridos terão sempre algo de supremo, aterrador e ingênuo, além de qualquer coisa de insegurança e aspirações infantis e uma passagem livre para qualquer mundo mágico. Se quer identificar o mocinho(a) Neil Gaiman à primeira vista, procure o que tiver os cabelos mais desgrenhados – preferencialmente trajando preto.
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Mas não há enfado no que aqui é facilmente identificável, e sim uma penumbrosa e constante luminosidade que dá contorno às sombras e esclarece do que se tratam; há, sempre, um movimento sinuoso no interior da personagem em direção à sua própria identidade, movimento que extrapola para o exterior maravilhoso ao redor e que funciona como a via sacra do caminho do herói mitológico, com o detalhe mais do que palatável de que, durante o caminho, o herói recolhe, em miniaturas, surpresas,episódios e enfins todos os aspectos de sua identidade assim transmutados, reconstituindo o sujeito em seu reencontro de si com uma profusão de cores, aceitação do sombrio e ensolarado, do arquetípico e coletivo e do particular e pessoal
que resulta em um conjunto melhor do que o original; e assim Neil Gaiman nos coloca diante de Caim e Abel, Shakespeare, o Homem da Areia e a lei do eterno retorno lado-a-lado; empatiza a Morte, redefine as estrelas e seus apaixonados, acolhe o terrível do infantil e o horror abençoado, reconstrói a cidade em seu embaixo, acionando em nós o já ouvido, o nunca dito, o não-visto, o não lembrado, o não-tudo que é o que faz falta em qualquer identidade.
Para ver, ler, repetir, recordar e elaborar: |
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Sandman – revista de história em quadrinhos, 1988. |
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Neverwhere - seriado televisivo, 1996.
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Stardust – livro publicado em 1998 que em 2007 virou filme - www.stardustmovie.com.
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Deuses Americanos – livro romance fantasia, 2001.
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Coraline – livro infanto-juvenil, 2003.
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Para saber mais, visite o site oficial do Neil Gaiman.
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