A memória mítica e a oralidade esquecida. |
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Publicado em: 15/04/2010 |
A existência de Homero, lendário poeta da Grécia Antiga, é uma incógnita. Acredita-se que suas obras – os poemas épicos fundadores da civilização ocidental, Ilíada e Odisséia – são na verdade compilações de contos e histórias contados oralmente por várias gerações. Por esta perspectiva, a autoria única dos textos é controversa, uma vez que aqueles representam séculos de história da cultura grega. Se a figura de Homero realmente existiu – não sendo portanto apenas uma ficção histórica – seu trabalho pode ser reconhecido através da fixação da cultura oral no tempo da escrita.
A passagem da civilização oral para a escrita foi uma grande transformação para a humanidade. Com a escrita, o homem se inseriu no tempo e no espaço
; tomou consciência da sua ação na grande narrativa histórica
. A evolução dos níveis inteligíveis nasceu da terra, quando o homem fez do campo de plantio sua página de texto, registrando os sucessos ou fracassos da colheita, aprendendo as variáveis condições do tempo e suas estações. Através dos textos, o homem conseguiu codificar, interpretar e raciocinar as coisas do mundo.
Essa evolução das habilidades humanas não significa a substituição de uma cultura por outra, já que a oralidade primária sobrevive como instrumento da própria cultura. Isso acontece, por exemplo, na transmissão e reprodução de tradições – observadas, assimiladas, imitadas – que independem dos meios da escrita; ou seja, a oralidade primária sobrevive hoje apesar do uso da linguagem oral plenamente codificada (secundária), mas na forma de rituais e de narrativas que contam o mundo.
Dessa forma, essa passagem da tradição oral para a cultura escrita representou uma modificação da percepção do homem sobre o tempo
. Se com a escrita o homem obteve uma ferramenta capaz de registrar os acontecimentos do mundo, antes dela o conhecimento era transmitido através da oralidade. Na ausência de um instrumento de fixação das informações, o homem recorria à dramatização e à narratividade como forma de memorizar as histórias essenciais da sua sociedade. Assim também, o ritmo, a dança, cantos e rimas serviam como artifícios narrativos para a memorização. Os mecanismos de representação desse período tinham como objetivo aproximar os contos históricos com os problemas cotidianos enfrentados pelos membros da sociedade, associando o homem ao mito e usando a emoção como meio de registro e formação da cultura
. Esse recurso pode explicar a crença dessas civilizações no tempo mítico e na sensação de eterno retorno das culturas sem escrita; no encontro do homem com seus arquétipos ancestrais e com esquemas preestabelecidos de existência
.
Do que podemos supor que o tempo para a civilização oral assume uma configuração circular, diferente do tempo cronológico da história escrita. A cultura oral existe através da repetição e, portanto, do constante recomeço, da retomada do mesmo. O modelo de representação dessa cultura pode parecer esquecido nos dias atuais, mas sua força surge inexplicável no relato dos acontecimentos do mundo, em uma apresentação artística, na erupção de emoções frente um filme, uma música, uma dança ou um recital de poesia. Se o homem moderno não mais se aproxima aos mitos clássicos relatados por Homero, a emoção aparece do encontro da perspectiva histórica com o tempo passado. Do esquecimento, o homem faz o seu hino de força à vida.
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