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Publicado em: 15/12/2009 |
Dádiva de um Deus aos homens; é claro que a manipulação do fogo, assim como outras maravilhas banalizadas não tinham outra possibilidade de entendimento; explicação inteligentíssima, diga-se de passagem, que conservava incólume o valor exato da relevância e da impressão sobre a psiquê humana que tal avanço representava, visto colocar em mãos humanas a produção de um elemento mágico, surgido espontâneo na natureza, representante de sobrevivência e sobrevida. Representaria até hoje, de maneira imparcial e exata, reatualizando a consciência do derredor, não fosse a preocupação com a agilidade e o preço do fogão suplantar o maravilhoso
. Ou a ciência desprezar de maneira tão arrogante quanto ignorante o mito, este colosso que não se cria à toa, que se locomove com asas, que se realoca, se sedimenta, se reatualiza, move montanhas de seres humanos ao seu redor e suas lidas e faz uma falta tremenda à mente científica.
Marx
mesmo afirma o horror de ser o dinheiro o movimentador e gerador de nossas condições e vida
; antes fossem para sempre os mitos; não é à toa que em relação ao Capital, prefiro A Cidade Antiga. Fustel de Coulange defende sua teoria da origem da propriedade privada como quem faz emergir o mundo; sobrepondo à forma o sentido, o que é sempre uma organização de prioridades irrepreensível. Nesta, considerada sua grande obra, o historiador – tão rechaçado por outros historiadores por conta deste posicionamento - abandona a unanimidade da apropriação e manutenção de territórios pela força bruta, motivada pelo instinto de sobrevivência e afins e fala sobre identificação, alteridade e linhagem; quem é este Outro, que me antecede e origina, e desfalece sobre mim? Este Outro, que nos limites afetivos de minha psiquê não pode deixar de existir? Este Outro antepassado, que eu resguardo sob a terra, rígido, sem poder se alimentar, sem poder coexistir? Este Outro que me alimentou, preciso alimentá-lo hoje. Por isso, se está ali, estático e irremovível, não me retiro; e despejo sobre a terra o que tiver para ser comido, o que tiver para ser bebido. E enxergo em um altar sob o teto da casa, em uma chama inextinguível, sua Alma, seu novo nome agora que não pode mais ser visto. Esta casa que erigi sobre a terra que recobre o meu gerador, o meu criador, o meu primeiro abrigo. Esta terra que é minha, pois tem enterrada sob ela a outra ponta do meu umbigo. Esta terra, agora propriedade privada, assim o é porque enterra meu antepassado falecido.
Dita demasiado romântica por um sem número de céticos exatos, inteligentes, assertivos e eruditos, a teoria da origem da propriedade privada de Coulanges, se não esclarece o fato em que parece se concentrar primeiro, não poderia ser mais bem-vindo: aponta para o estabelecimento de relações primordiais do ser humano social, sua impossibilidade de aceitar a morte como encerramento, a evidência de sua relação vital com os progenitores, como manutenção de sua identidade, de sua segurança, de sua origem, a maneira apaziguadora com que procura se haver com o horror de sua própria mortalidade.
A teoria movimenta, portanto, discussão sobre as questões mais intrínsecas à humanidade, anteriores à propriedade privada. Se a origem desta de acordo com Coulanges não é factual, que se tornasse, ao menos, um mito: inquestionável, a despeito da impossibilidade de ter todas as respostas ou comprovações, sem contradições; que fosse catalizadora, movimentadora de crenças cotidianas e suas atuações para, com sua mentira intuitiva, manter o ser humano um pouquinho mais próximo de sua verdadeira constituição.
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