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A condição humana frente o fluxo informacional da Internet
Modalidades, práticas e discussões sobre o papel da Internet no cotidiano.
Guilherme.
Publicado em: 15/06/2009

Ligo o computador e acesso meu navegador da Internet. Em minha aba de favoritos, disponho links de páginas e feeds de notícias dos principais jornais da Internet. Nas próximas horas (ou minutos, ok?!) do dia, procuro me atualizar com os acontecimentos mais significativos da minha área de interesse: navego pelos grandes portais de notícias (os jornais e as redes consolidadas na mídia); visito blogs e pequenas comunidades, que formam uma alternativa ao padrão informativo da Internet. Em pouco tempo, qualquer um de nós percebe que há uma grande disparidade entre estes dois modelos de comunicação, tanto em forma quanto em conteúdo. Mas antes de tecer qualquer crítica de valor ao sistema vigente, precisamos entender os mecanismos por trás desses modelos.

Os meios de comunicação cumprem, historicamente, a função de informar e entreter a sociedade industrial. Com o avanço das técnicas e a consolidação do sistema capitalista, o acesso aos meios de produção se estabeleceu nas mãos dos proprietários de mídias; conglomerados de comunicação que englobam informação, cultura e entretenimento. Sistematicamente, tais domínios dos meios são criticados por intelectuais e pensadores que os acusam de dirigismo político, econômico e cultural. Em sua maioria, as críticas que se fazem aos grandes empresários da comunicação buscam fundamentos em leis de livre concorrência e em ideais de consciência social. O que se verifica, de fato, é o resquício marxista de tais intelectuais, que fazem do apelo à democracia uma bandeira contra o poder e a influência das mídias no contemporâneo.

O julgamento de tais intelectuais de esquerda no que concerne ao papel social dos media encontra certa fundamentação na leitura de Marx sobre a alienação social decorrente da estratificação dos meios de produção. Ainda mais, o domínio dos meios de produção pode apresentar uma continuidade da luta de classes. Considerando a sofisticação das técnicas e o volume de dinheiro que esta indústria movimenta, a critica pode ser coerente, pertinente e propositiva. A ressalva dessa postura em relação aos meios insiste na consciência que a comunicação é resultado da produção humana. O que se quer destacar é a atividade humana por trás de todos fenômenos midiáticos; pois uma vez apartados da seus agentes, tais fenômenos podem exercer um força poderosa sobre a consciência humana. Essa postura marxista certamente é válida para os dias atuais.

A rede, como nova ferramenta de fomento e divulgação, certamente mudou a prática dos meios de comunicação e define a contemporaneidade por sua facilidade de acesso, atualização e portabilidade. A adaptação dos conglomerados da comunicação resultou em portais e centros de informações e conteúdos no ambiente virtual. As novidades da tecnologia e o modelo participativo da rede transformaram o modelo político-econômico dos meios de comunicação; a indústria fonográfica, por exemplo, precisou lidar com a oferta gratuita de músicas e os serviços de troca e compartilhamento de arquivos via rede. Com o alargamento da banda, o mesmo impacto começa a ocorrer com a indústria cinematográfica. Por outro lado, a Internet oferece aos pequenos e médios produtores de mídia uma ferramenta poderosa para divulgar seus trabalhos. Assim, o que se pode afirmar é que a cultura digital reorganiza as hierarquias produtivas, promovendo uma abertura do mercado e um aumento do espectro midiático.

A abertura proporcionada pela Internet desvela uma heterogeneidade das relações sociais marcadas pelo agenciamento da rede de links – a linkania – que o usuário tem a disposição. A diversidade de informações dessa oferta, entretanto, superam a discussão ideológica de bases sociais, ainda que se possa refletir sobre o papel dos gatekeepers e editores de sites, porque a própria técnica de construção virtual é facilitada aos usuários, permitindo acesso e manuseio da ferramenta mesmo às camadas menos privilegiadas. A rede, lida pelo viés da sociologia, compreende uma nova organização da estrutura produtiva dos meios de comunicação e representa, para a massa de usuários, uma ferramenta inclusiva que permite a sua participação ativa no ambiente virtual.

De certa forma, a cultura digital representa a condição contemporânea da pós-modernidade. A navegação na internet apresenta características de destemporalização, desterritorialização e desreferrencialização. O usuário “plugado” pode se sentir incluso em uma rede social porque a internet é resultante da produção humana, e ao mesmo tempo, pode se sentir desbravando territórios como uma atividade individual, seguindo links e traçando caminhos de conhecimentos. A liberdade que a rede virtual propicia ao usuário, leva-o a todas as direções espaços-temporais, rompendo barreiras políticas, econômicas e culturais.

Os percursos na navegação virtual podem levam o internauta a rumos marginais, clandestinos e até ilegais. Propaga-se também na internet, uma variedade grande de informações falsas, caluniosas e imorais. A fiscalização sobre os sites não consegue acompanhar a disseminação dos conteúdos e a velocidade do meio supera as condições legais e as regras de mercado que norteavam as condições de trabalho do comunicacional.

A percepção dessas atividades na rede, que geram dúvidas sobre a veracidade das informações divulgadas e difundidas, nos direciona a uma equação que contrapõe a liberdade de imprensa e a legitimação dos veículos de comunicação. A preocupação em apurar a acuidade das informações fazem os usuários procurar suas fontes de confiança que, em geral, representam os conglomerados de comunicação que se estabeleceram com emissoras de televisão, rádio e/ou jornais.

A complicação que se estabelece entre a liberdade de imprensa e a legitimação dos veículos de comunicação, se baseia pela necessidade dos profissionais de garantir uma certa autonomia contra o sistema político e econômico de seu país ou nação. A independência dos profissionais visa a transparência das atividades sociais e fortalece esta classe trabalhadora frente a conglomerados da indústria cultural.

Com a Internet, a liberdade de imprensa e de expressão se acentua com a proliferação de blogs, comunidades e páginas de discussão que permitem uma ampliação dos debates e discussões da malha social. No outro lado dessa balança, as informações, muitas vezes, carecem de um fator legitimador, que lhes dê relevância, visibilidade e repercussão. Neste ponto, são as maiores redes de comunicação que continuam a ocupar papel central no controle informacional para a sociedade de massa, funcionando como editores de conteúdos; compartilhando informações, buscando atualizações factuais e verificando fontes, ao mesmo tempo que administra o apelo comercial da divulgação de tais notícias.

O que se percebe com a internet é que ocorre uma crescente fragmentação de gostos e valores que se fazem mercadorias para o consumo de grupos segmentados da sociedade. Tal fragmentação corrobora a heterogeneidade proporcionada pela internet, mas ao mesmo tempo, serve como maquilagem para ocultar o próprio funcionamento dos processos comunicacionais na contemporaneidade: a regência da economia como indicador das preferências culturais e afetivas. Então, a participação dos meios de comunicação na vida contemporânea, quando os maiores agentes de comunicação são, no estágio atual, grandes conglomerados que exercem atividades em uma multiplicidade de setores da economia, deverão estar em contínua observação e análise. A implicância crítica (minha, sua, nossa) deve estar sempre atenta aos movimentos dos produtores de mídia, e em constante renovação.


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