Do movimento entre o consciente e o inconsciente. |
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Publicado em: 15/02/2010 |
Não resta dúvida de que o ser humano é um animal condicionado, através do tempo, pela aprendizagem, pelo instinto e pela cultura. Herdamos, em nossos genes, logo ao nascer, uma quantidade substancial de carga dos nossos antepassados
; carregamos informações vitais para a nossa sobrevivência no mundo. Há em nossa psique um depósito de memórias do nosso passado ancestral: essa camada – comum e idêntica para todos os homens, a qual Jung chamou de inconsciente coletivo – jamais poderá ser analisada à luz da consciência em nosso período de vida
.
Apesar de sua obscuridade, é a partir do substrato desse inconsciente coletivo que formamos a nossa personalidade
. Da tomada de consciência de nossa psique (processo de diferenciação e discriminação de opostos) à formação da estrutura egóica (sentimento de identidade), o inconsciente está sempre presente exercendo uma ação orientadora, de forma que todas as nossas experiências a posteriori são influenciadas por esse substrato coletivo.
Essa camada da psique – também chamada de psicóide – foi transcrita para o meio acadêmico contendo a sua própria linguagem, formada a saber de símbolos e arquétipos. Os arquétipos são os elementos de organização dos processos psíquicos inconscientes: são os patterns of behaviour (padrões de comportamento)
através dos quais a mente se expressa, na forma de afetos. É na manifestação de afetos que a mente toma conhecimento de alguns conteúdos inconscientes, ao mesmo tempo em que joga outros para a obscuridade; como compensação, há sempre um esconde-esconde. Em conseqüência da restrição da consciência provocada pelo afeto, verifica-se uma diminuição do sentido de orientação, que proporciona ao inconsciente uma oportunidade favorável de penetrar sutilmente no espaço que foi deixado vazio. Assim, os conteúdos inesperados ou inibidos e inconscientes irrompem e encontram expressão no afeto. Tais conteúdos são, muitas vezes, de natureza inferior ou primitiva e, assim, revelam sua origem arquetípica
.
A partir das nossas experiências desenvolvemos o nosso próprio depósito de conteúdos inconscientes; um gigantesco banco de dados que vamos armazenando ao passar do tempo. Memórias, hábitos e outras informações que não necessariamente precisam ficar à luz da consciência, ou por não serem compatíveis com as tendências do consciente, ou simplesmente porque é impossível manter todos os conteúdos iluminados
. Assim, esses conteúdos do inconsciente pessoal podem ser acessados pelo consciente
, enquanto aqueles do inconsciente coletivo não são conhecidos conscientemente, mas podem se manifestar através das experiências, pois são apenas predisposições latentes para emoções e reações
.
Claro que tal divisão do inconsciente é apenas teórica, com fins pedagógicos. Podemos concordar ou não com tais métodos analíticos, mas é inegável que o estudo traz idéias instigantes que nos ajudam a compreender os processos psíquicos. O interesse dessa construção é verificar como o inconsciente se comunica com o nosso consciente; e como a partir das experiências vividas o próprio inconsciente se atualiza, reagrupando os conteúdos existentes e criando outros inteiramente novos
.
Nesse movimento, podemos explorar o consciente e o inconsciente como duas forças antagônicas
e compensatórias. Sendo assim, entre influências e sobreposições, cada instância admite também suas próprias características, tão distintas quanto o sonho e a vigília. Deste olhar sobre os mecanismos da psique, destaca-se a diferença como o consciente e o inconsciente trabalham a noção de tempo e espaço: enquanto esses conceitos são fundamentais para a consciência, o mesmo não ocorre no inconsciente, que funciona com concepções mais elásticas e relativas
.
Parece portanto que o continuum espaço-temporal depende dos estados psíquicos; ou seja, é como se o tempo e o espaço existissem por si mesmos e fossem produzidos pela consciência. Para o inconsciente, a noção de continuum é muito mais complexa, quase que moldada à vontade da psique. Antigamente, nos tempos primitivos, tempo e espaço eram concepções duvidosas, que só se tornaram conceitos fixos (como explicou Jung) devido ao desenvolvimento espiritual do homem e à sua capacidade de medir. Antes disso, eram, em si, nada; tais conceitos nasceram da atividade discriminatória da consciência, como forma de descrever o comportamento dos corpos em movimento no mundo. São, portanto, conceitos de origem psíquica, do estado de vigília, motivo que levou Kant a classificá-los como categorias a priori.
Há, então, uma possibilidade de relativização do tempo e do espaço de acordo com as condições psíquicas
. Para o observador debruçado sobre o mundo objetivo, o continuum é uma categoria dada. Contudo, quando a psique observa a si própria, reencontra o mundo não orientado pelo tempo e pelo espaço. Esses dois gestos: um em direção ao objeto puro (matéria) e outro em direção à abstração pura (espírito) indicam uma cisão psicológica coletiva do homem moderno, como nos informa Jung. Quando do confronto desses movimentos, o homem distancia-se cada vez mais de seus fundamentos instintivos, abrindo um abismo entre a natureza e a mente, entre o inconsciente e o consciente.
O importante, para o nosso desenvolvimento pessoal, é justamente o aprendizado a partir do conflito dos opostos. A individuação ocorre das junções e sínteses dos processos psíquicos, em um movimento progressivo de crescimento e evolução. Através da experiência, ensina Jung, somos capazes de unir os conteúdos fragmentados da psique e, pelo uso da consciência, desenvolver a nossa personalidade de forma coerente e harmônica. Assim, cada pessoa representa uma combinação única dos potenciais existentes no coletivo como um todo
; ou seja, a identidade se desenvolve no percurso de experiências a partir de uma matriz comum e idêntica a todos
.
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