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O coração tem razões que a própria razão desconhece
Ou elocubrações de Borges como exemplo.
Carolina.
Publicado em: 15/02/2010

É no espaço tão bem sintetizado pela frase infeliz que se constitui o fantástico ; não carece de explicações, porque é a própria explicação. Concretiza, mitológico, alegórico, simbólico, o não dito, não pensado, não compreendido na concepção formal da palavra, mas primordialmente apreendido ou suscitado. Há, na contramão do fantástico assim concebido, uma via complementar igualmente instigante – enquanto o fantástico preenche as lacunas que o social, racional, patronal e padrão asfaltou em ênfase da frustração do ego individual em sua busca de apropriação e sentido universal e pessoal, a via paralela deixa espaço para o apontamento do absurdo em que se apóia a organização científica e padronizada e a racionalização; ri, por assim dizer, na cara da lógica , desnuda seu engodo e relativiza concepções de mundo, de normalidade e raciocínio .

Me contaram antes que eu me metesse a lê-lo, e sei ainda hoje sem oportunidade de ter visto o específico, do texto de Borges em que ele reagrupa animais e outros dos aconjuntados em classificações diversas das feitas pelo homem em seu desespero de racionalizar, controlar e possuir. Deixa, com isso, o absurdo dos critérios em evidência obscena, relembrando quão incontestável é que a organização pode ser alheia ao natural, e às vezes mesmo randômica – por que seria menos absurdo identificar animais pela característica comum de mamarem ou não do que uni-los em grupos de animais que contém listras no corpo (zebra e tigre assim se combinariam) ?

O fantástico da contramão, portanto, é surpreender com o tido como a regra , desalojando a regra do lugar de eixo de equilíbrio lógico e devolvendo o assombro, curiosidade e perplexidade ao contemplar humano. É nessa via de mão-dupla que Borges vai contando suas histórias e botando a boca no trombone, sem pudores, recortando do raciocínio questionamentos que podem assomar en passant e oferecendo elucubrações em retalhos distoantes que preenchem espaços diversos de uma observação demasiado linear frente a um prisma, seja em heresias hipotéticas e esclarecedoras, em situações de auto-confronto ou homenagenando, estarrecedor, a memória de H.P. Lovecraft.


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