(Ou De Desistência e Refluxo). |
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Publicado em: 01/06/2009 |
À madrugada, sou invariavelmente alvejada pela fúria sonora da criatura diminuta que se aloja na sala da casa; não se pode subir as escadas sem sofrer uma saraivada de impropérios da miniatura canina que habita o meio – caminho, à essa hora devidamente trancafiada do mesmo lado dos pratos de água e comida, jornais sanitários, paninho e sofá – além de televisão, vídeo-game e cd player.
Sofro, assim e diariamente, a reinauguração simpática de uma imagem alojada, durante o dia, no longe da memória; ao lado de um David Bowie em versão capilar medusa, sitiado em um filme antigo chamado, em Português, Labirinto, figura igualmente milimétrica e canina procura compensar pela velocidade sua exasperante limitação volumétrica, enquanto grita, correndo de um lado a outro no desespero de defender o território-patrimônio, em dublagem adequada e perdoável (quase uma impossibilidade): A PONTE É MINHA”.
Lembro-me porque compactuamos, nesse triângulo-vértice, em um lugar comum. Compartilhamos – além do afeto recíproco, alocação e o tamanho limitado, tratando-se especificamente do conterrâneo e eu, dentre os três – de uma mesma indignação angustiada; ele, pelo legado do instinto e eu, da institucionalização do familiar. Necessitamos – mandato acima do mero querer – da certificação do espaço conhecido, territorial, garantia da segurança, da identidade.
Ambos (des) locados em um espaço demasiado amplo para garantir a manutenção de um ninho reconhecível, pressentimos seu antônimo a apontar, dissonante e diário; a expansão de um conjunto – agora que ameça instituir uma tradição massacrante, talvez adversa à nossa (instituição pessoal construída pelo vivido e inspirado a) torna os passantes da escada indesejáveis pela brutalidade iminente da violação que os acompanha e nos ameaça confundir o equilíbrio da existência, do cão, o meu, o de todos nós, seres discursivos que aqui pretendem vos falar (Legião, mesmo que não sejamos muitos).
É claro que aqui cabe desfazer um já possivelmente instaurado malentendido; os viajantes outros dessa instabilidade trêmula em que respiramos e (co) agimos não nos são malvindos. Apenas como quando grande amálgama que torna a forma de rolo-demasiado-compressor do que poderíamos viver não fosse o não-direito de exercitar sujeito e troca em um contexto de outro-objeto unânime e silenciador.
Por isso não ignoro – desço de volta os degraus, abro a porta, estendo a mão ao faro, contemporizo e me despeço, nunca sem olhar e afeto e sem antes deixar-me (re)conhecer e garantir assim que tudo está bem – pelo menos para o cão. Quanto à mim, se não reconhecida a tempo, não sei.
É que depois de nascermos, crescemos todos (como todos), lentos, ouvindo (e portanto reinterpretando, pela ruela do desejo e expectativa de realização) histórias das quais não nos podíamos personagens, por demasiado pequenos que éramos e que, ao crescermos, aliviados enfim pela possibilidade de protagonizar, já não estavam mais aqui, seus parques e personagens enterrados desde sempre sob o eterno epitáfio do ideário utópico da interpretação de mundo destinada à credibilidade apenas dos infantes.
Desconcertados, tentamos, silenciosos, reaprender contexto, dispostos (talvez não até o último fio de cabelo) a tentar uma nova e naufragante reinstitucionalização.
Mas, até porque aí não demos muito certo, por que fazer assim? O contexto é (mesmo?) outro, mas ainda estamos aqui – e, depois que nos cortaram o rabo e aprendemos a falar – e há ainda qualquer ressonância inalienável do que foi no que somos que decidimos deixar ecoar em auditório mais amplo e acústico, para ver se esse 2x2 de fomos, sermos e é dá alguma coisa mais próxima de cinco.
E, se desistimos do isolamento silencioso é apenas para espraiar pelo bom e velho laissez passer que aí se encontra um pouco de singularidades, pretendidos e não aceitos; a despeito do temor do soterramento comum à furiosa maioria da aceitação confortável do (des)comum.
Não nos encharca o engodo de redenções, conversões e salvamentos, mas a inevitabilidade do gozo pessoal que conduz, discreto e contundente, qualquer movimento humano; se não nos interessa uma catequização em massa não é apenas pela humildade da lucidez conquistada com o esmorecer da adolescência, mas pelo egocentrismo consciente que vem de lambuja, desejoso de inspirar um pouco mais de oxigênio – e conceder-se expirações mais ruidosas, substituindo o constrangimento de ter notado a dissonância pela satisfação de ser Dito – palavra que instaura gente, como no princípio era o verbo.
Além disso, um último mal-entendido a esclarecer – este antes de consumado – a despeito do eco ateniense que se atualiza oco – já há uma tempo considerável – na crítica, que se pretende técnica, superior ao que observa, ao homem, ao mito, nós, leigos verborrágicos orgulhosos de nossa inocente ignorância não nos pretendemos etiqueta de grife e não temos a nada a falar de película, palavra, parusia, persona, psicanálise, psiquê, presentificação, desenganos ou desafios ou o que quer que seja de um ponto de vista que pressupõe entendimento científico, distanciamento intelectual, impessoalidade.
A idéia é darmos uma de sujeito que nos disseram um dia que éramos e que, depois de um longo e desengano inverno, resolvemos retomar como verdade. Esse sujeito ambulante, que está aí no meio de tudo que vê, que compreende e desentende, no meio do que não vê, mas sente, no meio da rua, carregando sacola, com o pé inchado dentro da meia quente, levando encontrão, esperando, e pensando.
Não se engane: a despeito do idílico ateniense que nos apaixona e estamos a espalhar, com a justificativa da difusão, a irregularidade das pedras não nos é desconhecida, o que transforma tudo em uma terceira conversa consciente do terreno; somos, aí, espartanos. E que venham os persas (A PONTE É MINHA!).
Dos ignorantes para os ignorantes.
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