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Publicado em: 15/10/2009 |
Acontece por causa da varinha de condão divina. A bailarina descola-se da pedra, desce da parede, e faz sua morada ali mesmo, no templo. Silenciosa e atômica, vai contando aos fiéis que história é essa de mundo, que história é essa de gente, que história é essa de deuses
. Para cada explicação, sua mão faz um desenho. Às vezes a direita, às vezes a esquerda, às vezes as duas. Às vezes o rosto se espanta e movimenta de acordo com o que a mão conta, enquanto os pés frios de pedra dançada lambem o ar e viram chamas. Sagrada a priori, a dança se desmonta e reconstrói, de templo para palácio, teatro, devassidão. A bailarina de pedra, divindade enviada, não caminha incólume pela humanidade, e acaba prostituta. Banida, com zepelin e tudo, Geni volta ao movimento na modernidade e a sacralidade cultural, se não a religiosa, é misericordiosamente resgatada. Apresenta-se agora no palco. Sem templo mesmo, sua reverência inicial ainda é ao deus que origina a dança, e seu respeitoso pedido de consentimento é a ele também para realizar seu ato.
Mãos e pés, olhos e rosto, a história é de novo e de novo recontada, e todas elas; de Krishna, de Shiva e Parvati, de Ganesha. Para cada pedacinho um gesto; a cada gesto, um significado. A plateia, em repeitoso silêncio, prestigia orgulhosa a manifestação cultural de seu país, que encerra pelo menos sete estilos de dança originalmente parte de rituais sagrados. Observa, embevecida, os gestos. E não entende nada. Os mudrás, gestos representativos utilizados nas diversas danças indianas para a contação de histórias míticas que acompanham os passos não são, neste momento, de domínio público. Nem na Índia. São, possivelmente, compreendidos pelos inciados em dança, talvez quase que exclusivamente. Mas o público continua vasto. E saciado. O fato é que o gesto fala. Mesmo que não se entenda a representação específica a que se presta, uma mão aberta em flor – representando a flor de lótus há o tradicional mudrá Alapadma – não perde sua beleza, nem seu impacto visual. Somos, nós todos, humanos iniciados e não iniciados, olhos e gestos
. Captamos os movimentos uns dos outros com um olhar silencioso que, sozinho, recobre o visto de significação. E o gesto está ali para dizer que existe. Que o Eu (agente) existe. Que o Outro (observado) existe. Para além do nosso desejo,do nosso controle, da nossa imaginação, para nos surpreender, assustar, embevecer, apaixonar
. Verdade simples que a dança convida a admitirmos, e além: inverte a lógica do pensamento sobre o gesto, que é por definição movimento, e congela-o, devolvendo a bailarina à pedra, devolvendo a pedra à vida
. Inspirados nas esculturas que desde um tempo era uma vez adornam as paredes, as colunas, as entradas de templos hindus, os movimentos da dança tiraram da fixidez sua inspiração, e não a rejeitam durante a performance. Não são poucas as posturas congeladas que entremeiam a contação de histórias e a profusão de passos, que identificam a artista com fotografias esculpidas de Shiva, Ganesha, Parvati...E aí todo mundo entende. Mesmo fora da Índia.
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