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Publicado em: 15/09/2009 |
A questão do olhar possibilita uma grande variedade de estudos e reflexões. A proposta desse texto é seguir os estudos do conto Der Sandmann, que tem análises publicadas no campo da psiquiatria, da linguística e do comunicacional, e apontar as similitudes entre a discussão acerca de Natanael e a obra da cineasta Marjut Rimminen, entrevistada no documentário nacional Janela da Alma (João Jardim e Water Carvalho, 2001).
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Ilustração "The Eye Collector", baseado no conto Der Sandmann |
Natanael, o personagem do conto Der Sandmann (Ernst Theodor Amadeus Hoffmann, 1815) desvela um estado de loucura ao enfrentar um vendedor de binóculos que bate à sua porta
. Giuseppe Coppola, o vendedor, o faz lembrar do advogado Coppelius, amigo de seu pai que visitava a casa com frequência. Nestas noites, as crianças eram postas para dormir mais cedo pela babá, que lhes contava a lenda popular alemã do homem de areia, onde esta figura ameaçadora juntava-se às crianças à noite para adormecê-las
, jogando-lhes areia nos olhos, fazendo com que estes saltassem para fora. O homem de areia levava então os olhos para alimentar seus filhos na lua. Natanael, curioso sobre o homem de areia, associa o ser mítico com a visita do advogado Coppelius. E em uma dessas noites, uma explosão mata o pai de Natanael.
Quando Coppola bate à sua porta, Natanael transfere a figura do advogado e do ameaçador homem de areia para o vendedor. Esse evento, conhecido na análise freudiana de unheimlich (o inquietante)
, marca o início do processo alucinógeno que leva o personagem ao suicídio. Natanael acredita que Coppola é o advogado Coppelius, e decide comprar do vendedor um binóculo, na tentativa de se livrar do homem. Por estas lentes, Natanael descobre Olímpia, e por ela se apaixona. A imagem de Olímpia, uma visão maravilhosa e deformada através das lentes, modificam o personagem; há um rompimento do olhar e da consciência de Natanael. No final do conto, Natanael encontra Olímpia, uma boneca de madeira, com as partes desarticuladas e envolta de sangue. Ele se suicida.
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O conto, analisado no ultimo século por Freud, Jung e o estruturalista Todorov, revela uma construção primorosa na literatura do fantástico. A conclusão, mais ou menos em comum, sobre o “inquietante” em Natanael está na indiferenciação do personagem entre o eu e o mundo exterior. Desde o momento deflagrador, onde o passado e o presente se fundem na presença do vendedor Coppola, Natanael confunde imaginário e realidade, e regressa a um estado infantil e perturbador. O seu olhar, diferenciado a partir desde instante, representa, antes de tudo, a sua própria psique. A sua paixão por Olímpia é a projeção do seu mundo interior, que se espelha no autômato e se recusa a viver.
No campo do comunicacional e do filosófico, o conto permite uma leitura diferente sobre a visão. Essa corresponde ao fascínio de Natanael com as lentes do binóculo, que “acendem” o olhar e apagam a memória. O artefato, simulacro midiático da própria realidade, encanta o personagem a ponto de se apaixonar pela imagem de Olímpia. O processo seguinte é a objetualização do seu próprio olhar, não mais sujeito; é a boneca (o simulacro, o robô, o avatar) que olha Natanael
.
Em Janela da Alma, o olhar é discutido pela perspectiva da deficiência. Essa condição propõe novas/outras reflexões sobre o ato de ver que vão além da “cegueira mental” de Natanael, o que não impede a aproximação aqui com o documentário
. Entre os entrevistados, há a figura da cineasta Marjut Rimminen, que relata seu trauma em decorrência da deficiência. Sua mãe olhava-a com tristeza, e para cima de seus olhos, como que perdida com o estrabismo da filha. Marjut traduz estes sentimentos no curta-metragem Many Happy Returns, que encontra paralelos fascinantes com a obra de Hoffmann. Trechos do trabalho da cineasta aparecem na montagem de Janela da Alma, mas é na experiência de assistir ao curta-metragem na íntegra, que as similitudes se revelam. Os elementos de Der Sandmann estão todos lá: o unheimlich, os duplos, o autômato e o fantástico.
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