Alegoria e Iluminação. |
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Publicado em: 15/02/2010 |
Há qualquer coisa no mito, no conto-de-fadas, que ciência alguma pode confrontar; em cada enredo, constitui-se um princípio humano indiscutível, quem sabe um modelo inspirador, a descrição de um inescapável processo de passagem, patrimônio nem de longe exclusivo das mitologias tradicionais.
Michael Ende, mestre das metáforas e alegorias, publicou sua obra-prima em 1979, e era um virtuose mitológico.
Classificada como romance alemão na contracapa da 4ª edição brasileira (setembro de 1988), A História sem Fim correu o mundo como infante, e contém mais psicanálise, filosofia e teologia do que a nossa vã filosofia pode conter, sem atrapalhar a história e seus símbolos com uma pergunta retórica tradicional qualquer.
No capítulo XXIII, o protagonista depara-se com uma comunidade singular, na qual a imaginação coletiva movimenta os barcos de pesca, imprescindíveis para a vida do grupo. Na jornada de uma das múltiplas embarcações idênticas, da qual o protagonista criado por Ende participa, a fatalidade leva a óbito um dos tripulantes. O caso, por não afetar a vida conjunta dos navegadores do Mar da Névoa, não é lamentado – sequer notado
. Frustrado pelo aniquilamento do indivíduo que custou a "harmonia" de grupo
, Bastian ausenta-se de mais um dos locais que visita em sua jornada, que não terminará sem episódio em que o individualismo prevaleça e seja, também, fonte de frustração e desencontro.
Mais do que uma análise imparcial de exatidão precisa e sensível sobre o Humano e seu entender-se e se relacionar, o mito é crítico e pode, proeza tão evidente em A História sem Fim, conduzir a um entendimento subjetivo concreto diretamente vinculado ao constituir-se como sujeito e como cidadão, sem prejuízo de nenhum.
Mais efetivo do que uma explicação teórica, retórica, científica, porque age no primordial da constituição do humano, mito constituído, A História sem Fim conduz a uma compreensão interna que está aquém do discurso, e que, muito mais do que ele, conduz o movimento voluntário do existir.
Palavra não diz nada
. História, sim
.
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