O Eu e o Outro do Sujeito que fala. |
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Publicado em: 15/04/2010 |
Palavra não sai incólume
, especialmente quando repetida. O primeiro mamã, ou papá, ou afim, já vem carregado do sentido de inserir-se no contexto como sujeito, como falante, como igual. Extrapolando a carga semântica, ali utilizada para expressar um afeto ou manifestar uma necessidade, a palavra diz eu entendo e participo e, imediatamente, localiza o Sujeito e o Outro, inscreve o Outro no desejo do Sujeito e, sobretudo, inscreve o Sujeito no seu lugar de sujeito: Mamã indica, pela voz do falante, quem é esse outro-você-mamã na circunscrição do sujeito, que se identifica como o sujeito - eu - e delimita as fronteiras de seu lugar no mundo/identidade em contraste com quem é o outro. Eu sou filho e você, mamã, me define como tal, e assim me definiu, antes ainda que eu fizesse minhas as vossas palavras. E, assim sujeito, e assim inaugurado, se inscreverá na vida eternamente com o mesmo discurso primordial, fazendo suas as palavras que o antecederam, apropriando-se assim, de seu lugar no mundo, através de um código anterior que vai, por si, defini-lo. Através desse recurso de apropriação discursiva pelo qual o sujeito se define no mundo constituem-se suas relações e, visto que ele é atravessado pelo discurso, mais do que utiliza-se dele, com consciência plena, o grau de autonomia desse sujeito se encerra em sua capacidade de observar seu próprio discurso
e as muitas vozes que nele se inserem - assim como no discurso alheio – de forma deliberadamente distanciada, com uma postura critica (que só se alcança voluntariamente) que possibilite dissociar o discurso do falante e identificar naquele as marcas intencionais que podem funcionar de pista para a motivação discursiva, possibilitando assim uma escolha mais consciente na utilização e interpretação da palavra – que redunda na (re)constituição da identidade e suas relações.
É esse o recurso do reconhecimento possível, que identifica o olhar que o sujeito tem sobre si mesmo
e que olhar pode ele constituir sobre o outro, diverso daquele que está diretamente identificado com o que o outro vocifera – mesmo porque o mesmo recurso que serve para interpretar serve para manipular
, e assim há os sujeitos que nos falam por um discurso-a-fim-de, que tem uma motivação diversa daquela expressa no código, discurso a-fim-de que atravessa a história humana pública, como na política, e privada, como nas relações íntimas, que produzem atitudes reativas do Outro-sujeito que, por tantas vezes, movimenta-se em direção, ou em harmonia, a um sujeito-palavra que se apresenta muito diverso do sujeito-a-dizer que constitui esse discurso; aí temos fiéis, eleitores, namoradas, mães e filhos, eternos ouvintes de um eco – oco deliberado. Pois aí que o dizer é inevitável: O sujeito não fala; ele é falado
.
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