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Dos nitratos ao pixel: sobre o sensível em Cinema Paradiso
Efeitos de realidade: fantasmagoria e memória impressas em película.
Guilherme.
Publicado em: 15/06/2009

A questão sobre a captura do "real" é cara aos teóricos do cinema. A intermediação realizada pela película, a iluminação, o tempo de exposição e a montagem dos planos formam um quadro de discussão a respeito daquilo que se vê projetado na tela. A imagem cinematográfica convencional, tal como estamos habituados, pode no máximo apreender um certo efeito de realidade. A organização dos planos buscando a continuidade da ação pelo padrão sensório-motor estabelece a norma clássica da narrativa do filme. A manipulação dos elementos formativos da imagem e as escolhas subjetivas de enquadramento, duração e ritmo determinam os sentidos de uma obra cinematográfica.

Com o aprimoramento das técnicas digitais de captura e edição de filmes, novas formas de manipulação da matéria fílmica tornaram-se possíveis. O conteúdo imagético, antes impresso na sensibilidade dos nitratos de pratos da película à luz, são agora armazenados em códigos binários. Esta mudança é significativa para a relação que temos com estes “efeitos de realidade: que a imagem em movimento produz. Se antes o material físico da película servia como índice de uma realidade assimilada e registrada pela câmera; o cinema digital elimina o meio de suporte e transforma o registro imagético em uma linguagem "de fundo", ou seja, a sua leitura só é possível com o auxílio de softwares programados para ler a codificação digital.

A sensação de simulação, de simulacro e artificialidade se fortalece com esta imagem digital. Temos, com esta tecnologia, um outro “efeito de realidade”? É possível o cinema digital se aproximar mais da captura “ontológica do real” que a película? Sabemos que atualmente a resolução desta imagem equivale às melhores emulsões em filme. Mas o que muda para o espectador? Quais são as implicações da tecnologia na sensibilidade do leitor?

Para ilustrar esses pensamentos, lembremos do filme italiano Cinema Paradiso (1988), dirigido por Giuseppe Tornatore que exemplifica possibilidades de relação do sujeito com a imagem. Na obra, alguns aspectos técnicos da projeção de película são presentes na história do menino Totó Salvatore e sua interação com o projecionista de cinema Alfredo. Contada em flashbacks, o filme apresenta a paixão de Totó pelo cinema e como Alfredo tornou-se uma figura paterna para o menino que perderá o pai no período de Guerra. Totó se apaixona pela técnica de exibição e a arte passa a preencher as suas necessidades afetivas. O menino cresce no cinema paradiso, roubando rolos de película, conversando com Alfredo e posteriormente trabalhando na sala de projeção. Suas relações inter-pessoais também são também agenciados pelo universo cinematográfico, com o auxílio de Alfredo ou de uma câmera portátil, registrando a bela Elena. A progressão da narrativa é assim marcada pelo sentido de memória e registro.

Há uma sequência que explicita essa construção da imagem fílmica como memória. Totó, volta para casa acompanhado de Alfredo e comenta que não lembra mais do rosto de seu pai. Ao chegar em casa, Totó descobre que os rolos de filme que escondeu embaixo da cama pegaram fogo e acabaram por queimar as fotos que sua mãe tinha de seu pai. A imagem da foto queimada entre restos de película simboliza a mudança de suas lembranças e a transferência do registro paterno para o projecionista Alfredo.

O que se estabelece em Cinema Paradiso é a construção do persoagem a partir da imagem cinematográfica. No último ato, há ainda uma mudança significativa na relação do personagem com a imagem e com o cinema. Com a morte de Alfredo, o agora adulto Totó Salvatore retorna para a sua cidade natal depois de anos vivendo em Roma. As lembranças do finado Alfredo, de seus amigos e familiares abandonados no auge da juventude, transformaram-se em recalque: Salvatore tem dificuldade em reconhecer aqueles rostos e de se aproximar das pessoas. A fantasmagoria também está presente quando o personagem assiste ao rolo de filme deixado por Alfredo; uma colagem de cenas cortadas pela censura da época, mostrando beijos e carícias sensuais. Toda a sequência final trabalha este ausente desconhecido no protagonista.

Se na imagem em película podemos obter estes significados, quais são os sentidos propiciados pela imagem digital? Se defendemos que a imagem digital remete a ela mesma (ao seu próprio código) e não é mais análoga ao real, quais serão nossos mecanismos de registro da suposta realidade? A nova visibilidade da imagem problematiza ainda mais as questões de linguagem do cinema e das artes visuais. E isto é uma ótima notícia: estamos apenas no começo da revolução digital, experimentando construções e entendendo seus sentidos.


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