Exercício sensorial e uma abordagem sobre o medo. |
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Publicado em: 15/09/2009 |
AntigonishAs I was going up the stair William Hughes Mearns |
Enquanto cruzo a rua na preferencial a dor atravessa, inesperada. Trespassado pelo que deve ter sido o instrumento de remoção do cérebro na mumificação egípcia, o interior do meu ouvido interno e seu sintoma diluem-se entre o vermelho e o verde, o movimento do pianista no pedal do carro e a primeira marcha. Há, em detrimento da agressão silenciosa, insalubre e inexplicável ao meu ouvido, horários, compromissos, semáforos e placas de sinalização. A transeunte que me atravessa sucumbe à borracha dos pneus, esta impiedosa em sua sina aniquiladora de seguir o fluxo ou ser ameaçada por ele.
A indigente à esquerda não é vista senão por um momento, há anos repassando as contas no universo de seus garranchos que a mantém parcialmente indiferente à sanidade ao redor e que está a receber de um outro (também) nunca visto um comentário imune à sua saudável barreira de alienação, porque vem dito em vermelho, em e e erre e erre e o, sangue que lhe acorda o cérebro , que se defende indefeso, arremessando contra o Outro a única munição ao alcance das mãos, feita da água, sal e farinha prensadas em uma circunferência recheada. O Outro imortal continua seu caminho incólume, mas a alma do agressor agredido que não vejo, acho, por um segundo, logo interdito pelo seguinte, que não.
O parente que uivava em agonia por conta de uma doença temida da qual não é portador não sucumbe ao próprio eco, silenciado por um alarme externo sem silenciador que o encaminha para a porta, para a visita, para o preparo da refeição e seu continuum de dia seguinte e dia anterior.
Aquele outro que está do outro lado do portão pressiona o braço estirado ao longo no corpo, suprimindo o caminho úmido que se abria, translúcido e lacrimejante sob a junção do braço, corpo de flecha na manga da camisa, que se aniquila antes do cumprimento, sob a pressão da carne, e salva para um não-dia o desconforto a respeito da pouca luminosidade e uma mal decodificada impressão.
Inexoráveis braços suprimem o caos sob a escova de cabelos, a água aguda no rosto, o âmago cada vez menos distante do fundo da lixeira sendo recoberta em sua sina, vassouras nem tão paralelas encaixotando o lastro do não-telefonema já suplantado, prontos para o não-desmarcado, enquanto a outra agora-sorridente da casa ao lado, olhos miúdos entre as gargalhadas de uma descontração televisiva, enleva-se com a distração semiótica, quase inconsciente do inchaço ocular desnecessariamente ocasionado por um não-desparecimento no dia anterior.
A outra fêmea do recinto manifesta-se em caixa alta, pelos e patas na vertical, resposta imediata a um apelo não identificado que logo se descarta na identificação olfativa, relaxando o corpo atento sobre os quartos.
Nos idos 1900s uma irmã retira-se de casa; quinze anos depois, a temporã sobressalente sonha com sua própria garganta e um bezerro entalado, que não se remove nem quinze dias após o despertar, identificando, eventualmente, a sensação de perda aniquiladora e um não-saber do porvir suprimidos pela celebração alegre do casamento da mãe-irmã mais velha ocorrida no século passado.
Uma leve taquicardia me abre os braços diante do volante a um amarelo piscar de olhos do estandarte à frente, e me devolve em fotografia um arrebatamento fora da curva, externo-ocasionado, seguido de uma tríade-terça-quarta-quinta-feira à esperar o veredicto da cabeça machucada, já cronologicamente afastado.
Segue-se o palmilhar do pedal nos cronogramas a cumprir. Uma rápida agenda mental reafirma horas e datas, além do nome da rua a ser seguida. A placa à direita me oferece uma palavra que não está escrita ali, mas vem de um jardim distante que me requisita - sei onde se encontra e, etiquetadas as interferências, realoco-as, automática, em suas gavetas fora do carro, fora da pista, fora da vista. O nome da rua desgruda-se, branco, estreando a placa imóvel, imutável, idêntico à sua referência, como sempre.
A pista divide-se em duas ao lado de um prédio cinza. A menina atrás da janela acesa à esquerda desgruda a testa do vidro sabendo que precisa nomear, reconhecer e identificar um a um os agentes de seus sustos, ou será novamente como se tivesse areia nos olhos.
O pedestre cruza a faixa à frente com os olhos no chão, reensaiando os passos em espaço aberto; Na pedestre, a máscara escorrida sob o queixo devolve a invocação de uma ameaça a eras passadas.
Há algo de azul na luz rebatida pela moça a olhar em frente.
Dobro a rua na direção oposta. Reflexos recondicionados conduzem, seguros e controlados, o (eterno) rodar em frente.
O súbito torna-se nada. O sobressalto abandona-se, desamparado. Haverá outras oportunidades para faze-lo submergir, empurrado para fora do exigido e atento consciente. Mas, quem sabe,assim espero, não da próxima vez. Desta vez cumprirei a sina abolida da civilidade; estacionarei o carro na esquina assim que me acene o sinal, a palavra subliminar, o sussurro não proferido, o suspirar não identificado, o olhar não produzido que é, sim, qualquer coisa além de um malentendido, qualquer coisa que reorganiza, na vida, um sentido tão carente de costura, qualquer esquina que me encaminhe diretamente ao terrível mal que perfura meus ouvidos, ao ser inaudito que abrasa os olhos da menina no prédio, a explicação comprovada e não científica que personaliza a ameaça da mulher que se desgrenha, o agente inumano que engole o chão periférico do homem que pisa a faixa, o não-ser pérfido que sussurra tragédias à espectadora televisiva, aquele com nenhum rosto que finalmente terá uma cara, ou tantas caras, e uma imagem qualquer definida ou não-definida, aquele que justifica o suor frio e a taquicardia, aquele que será o inimigo concreto, o grande herói salvador das histórias de terror, que pode ser combatido, nas mãos de quem está o fim ou o alívio. O Grande Verdade, que explica o não-entendido, que com sua imagem e sua voz embala o alívio que é o do refluxo que esvazia o corpo do seu veneno e depõe diante de si o que era apenas sentido interno.
Encontrarei, enfim, o Desfecho
, a verdade sem vaidade das histórias de meter medo, nu, obscena, visível sem cortes de censura, o homem que não estava lá, que vi quando subi os degraus, que não estava lá hoje mais uma vez, e que eu, e você, e todos queremos tanto que vá embora, enquanto precisamos, todos, dele aqui, bem perto daqui, mas sem essa história de não-visto, e sim com todos os braços e pernas no lugar (provavelmente lugares inesperados pelo que é específico), em toda a sua liberdade de ter – ou não ter – pernas e braços em qualquer lugar, livre que é para que com isso o que não tem sentido se justifique, se qualifique, se identifique, inverta o que está do avesso, evidencie o recoberto, coroe-se como prioridade única, suprema, absoluta, e devolva à vida o sentido.
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Por: Lizie Eyrosa, psicanalista Tudo na vida mental tende a percorrer um caminho já trilhado anteriormente, evitando, assim, os novos caminhos que impõem uma resistência maior – a isto chamamos memória. Segundo Freud, podemos supor que, desde o momento em que uma situação foi alcançada, surge um instinto para cria-la novamente e ocasionar a repetição. Isto faz com que a partir da experiência primeira de satisfação do bebê sugando o seio materno, estabeleça-se uma facilitação ou um diferencial na trama dos neurônios, de modo que, ao se repetir o estado de necessidade, surge um impulso psíquico que procura reinvestir a imagem do objeto com a finalidade de reproduzir a satisfação original. Este caráter repetitivo, que a experiência de satisfação imprime ao funcionamento do aparelho psíquico, coloca o sujeito em uma busca infindável pelo objeto que ele crê ter alcançado, mas que está, desde sempre e para sempre, perdido. No entanto, nessa articulação criança - mãe reencontramos outras articulações amorosas. Nossos amores repetem os sentimentos pela mãe, mas repetem também outros amores que nós mesmos não vivemos, o amor de nossos pais pelos nossos avós, por exemplo. Segundo Freud, o paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas expressa-o pela atuação. Ele reproduz não como lembrança, mas como ação. Repete naturalmente sem saber o que está repetindo, ou seja, um estranho familiar. Algo reprimido que retorna, pois esse estranho familiar não é nada novo, porém algo que é familiar e estabelecido na mente, e que somente se alienou desta, através do processo da repressão. Como no conto “Homem da Areia” de Hoffmann, o sujeito repete o comportamento reprimido e assustador que constitui o estranho familiar, no qual a questão está no "arrancar de olhos", pois a incerteza intelectual é irrelevante frente à estranheza que o “arrancar de olhos” provoca. Na perspectiva freudiana, o medo de perder os olhos é um temor que pode ser entendido como sendo um substituto do temor de castração. O medo da castração é uma ameaça que vem do exterior e atinge, em fantasia, a interioridade; a rigor, quem castra é a mãe. A castração nos faz sentir como seres incompletos, carentes. Mostra-nos a brecha entre tudo o que se quer e aquilo que se pode (princípio da Realidade). Mas o seu exagero pode trazer conseqüências negativas. A fantasia de castração, atualizada por situações reais, é uma fonte de medo. Segundo Melanie Klein, a relação da criança com o seio que abastece ou priva, gratifica ou frustra, traz uma fonte de sofrimento e angústia, que é gerada pelo temor de que o objeto amado tenha sido ou venha a ser destruído. Por isso, fantasiar torna-se um meio de defesa, uma maneira de inibir e controlar as pressões internas, externas e expressar os desejos. As fantasias constituem as primeiras trocas com o mundo externo, uma realidade que pode ser considerada assustadora, mas fundadora do superego e da culpa. A formação do superego começa no momento em que a criança realiza a primeira introjeção oral de seus objetos, e como devem ser projetados de novo sobre os objetos do mundo externo, a criança é dominada pelo medo de sofrer, por parte de seus objetos reais, ataques de uma crueldadeinimaginável. O desamparo é a fonte mais profunda da angústia humana, a fonte da melancolia e da depressão. Comumente nos deparamos com pessoas pressionados pela excessiva severidade do superego, e nelas aparecem à auto-recriminação, a desvalorização pessoal e a força da pulsão de morte; a libido não satisfeita se transforma em angústia, em masoquismo, um retorno da pulsão destrutiva para o ego. E como o inconsciente é atemporal, a criança retorna e retoma seu lugar nas emoções do adulto, de um adulto sem rumo, castigado pela culpa. E é desta forma que o passado se expressa no sintoma, mostra-se nos atos, emoções e relacionamentos. O traumático é carregado de afeto, a pulsão de morte afasta o outro, tira-lhe o significado, produz desligamento. Portanto, as privações de ordem interna e externa perturbam o equilíbrio psíquico que fica sob a ação do desamparo e da dor. O desejo de punição tem um “tom” afetivo que, sob a ação do superego, transforma o sofrimento em prazer. Sendo assim, repetir, recordar e elaborar, no modelo freudiano, representa uma condição de operar no tratamento analítico. É importante analisar o que se repete no espaço terapêutico para que o paciente recorde e torne consciente o inconsciente, a angústia, o percurso da sexualidade e a ligação com as pessoas do passado. Pois para Freud, a consciência representa a ponta de um iceberg, onde a maior parte do mundo afetivo permanece recalcada no inconsciente. |
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