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Espectatorialidade 2.0
Possibilidades de fruição audiovisual na HDTV e na Internet .
Guilherme.
Publicado em: 15/08/2009

A mudança tecnológica nos meios de produção e difusão dos conteúdos audiovisuais televisivos com a implementação da TV digital, um modelo em alta-definição de imagem e com recursos de interatividade, propõe uma reformulação da programação e dos modelos de negócio por parte das emissoras, assim como a reestruturação do aparato técnico e um aperfeiçoamento dos profissionais da área. Ao mesmo tempo, a TV digital traz uma série de oportunidades e percalços para os produtores que ainda não sabem como melhor usufruir a tecnologia e seus recursos. A alta-definição implica um novo formato, ao se aproximar da janela cinematográfica, e uma nova estética, através da resolução que permite um maior detalhamento da imagem, o que é motivo de preocupação para os realizadores que precisam adaptar também os departamentos de iluminação, cenários, figurinos e maquiagens de seus produtos. A digitalização dos sinais e o alargamento das faixas de transmissão permitem a abertura de novos canais de comunicação e a utilização da rede para comunicações interativas, múltiplas e simultâneas.

Enquanto a TV atualiza a sua interface e restabelece sua operação de mercado, a digitalização das comunicações leva a aldeia global a um novo patamar, quando o audiovisual, através do vídeo digital, se torna mais acessível nos seus modos de produção e difusão. A banalização do vídeo em meios como o YouTube gera especulação por parte de produtores e profissionais do audiovisual. Atualmente, a Internet responde a grande parte da pirataria e da transmissão de conteúdos audiovisuais sem limites pela rede. Vídeos completos de filmes, séries e noticiários podem ser assistidos de graça pelos internautas e “baixados” no computador pessoal do usuário. A revolução cultural proveniente da difusão digital exige dos profissionais da área um intenso aprimoramento da linguagem e dos conteúdos previamente estabelecidos. As novas funções na TV vêm reafirmar o potencial comunicativo do meio, frente aos avanços da Internet (com streaming de conteúdos televisivos e downloads legais ou piratas) e da transmissão de audiovisual para aparelhos de telefonia celular (como os chamados mobsódios). Os meios de produção passam a rigor por um momento de remodelação.

Recursos como vídeo on demand, pay-per-view e armazenamento de programação em memória aceleram o consumo e transformam os modelos de negócios. O conceito de telespectador e internauta se entrecruzam na formação de um interespectador que tem todo e qualquer conteúdo a seu acesso, a um clique do mouse ou do controle remoto. Tendo como parâmetro a convergência dos aparelhos nos países desenvolvidos desde o final dos anos 90, pode-se destacar vantagens como o aparelho TiVo nos EUA, onde o telespectador “salva” os programas das emissoras para assistir no horário que melhor desejar, evitando comerciais e anunciantes. Com esta transformação da televisão de uma caixa receptadora para um novo servidor de conteúdos múltiplos, o espectador-navegante, mais ativo na escolha de seus programas e conteúdos, e mais consciente dos discursos e do aparato técnico que o produz, tornar-se-á tão mais crítico quanto participativo da aldeia global.

No Brasil, os canais (veículos) de comunicação estão ainda no estágio inicial desta transição para a alta-definição. O atraso nessa reforma tecnológica pelas emissoras tradicionais de difusão (aberta ou fechada) pode custar caro para as empresas brasileiras. Desde o anúncio da implementação da TV digital no Brasil, emissoras e empresas de telefonia móvel entraram em discussão sobre a utilização da banda digital e a detenção de direitos de difusão para as companhias telefônicas, que desejam abrir seus próprios canais de comunicação na TV. Esta possibilidade assusta as emissoras que vêem as empresas de telefonia como parte importante de seus lucros na forma de anunciantes de seus programas. A regulamentação do uso do espectro digital no Brasil, objetiva, por fim, resguardar o lucro dos maiores conglomerados nacionais, com transmissão em alta-definição da mesma programação convencional, sem abrir espaço na banda para canais alternativos, ou experimentais.

Através da Internet, o público brasileiro teve acesso antes aos formatos estrangeiros de alta-definição, e a banda larga pode ser atualmente uma ferramenta bem mais útil do que o aparelho televisivo para os brasileiros, principalmente àqueles interessados na diversidade de conteúdos e opiniões. As emissoras nacionais de televisão apresentam dificuldades na adaptação ao ambiente virtual da rede. A oferta de vídeos e os canais de distribuição são pouco usados, e geralmente exigem assinaturas do provedor de acesso próprio, o que restringe o acesso. No estrangeiro, as emissoras disponibilizam todos os conteúdos, via streaming ou download, logo após a exibição dos programas no seu canal de TV. Algumas restringem a exibição para seu território, mas não é preciso ser um hacker para burlar esta condição e visualizar o material na rede. Com esta disponibilidade de conteúdos, os usuários brasileiros conseguem acompanhar séries e programas estrangeiros pela Internet, partilhar entre colegas e até legendar os conteúdos mais populares, criando um verdadeiro ramo paralelo de distribuição e circulação de materiais. Não apenas esta prática tem um efeito sobre os modelos de negócios das emissoras, retransmissoras e programadoras nacionais, como também populariza ainda mais os canais estrangeiros. A mudança do paradigma comercial das empresas televisivas brasileiras só vai acontecer quando estas aceitarem as novas possibilidades tecnológicas e se abrirem para a livre circulação de seus conteúdos. Não é uma reestruturação fácil, mas é necessária .


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