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Publicado em: 15/11/2009 |
Não acredite em tudo que vêem os seus olhos. Tal como o sistema e a justiça, eles são falhos, mesmo que abertos eles dormem. Distorções se apresentam em todo o momento, enquanto você come, caminha, garante o pão de cada dia.
Elas se constroem sozinhas ou são manipuladas pelo invisível, que feito teia, as entrelaça em uma cama de gato onde a próxima vítima provavelmente será você.
Seguros de que nossos sentidos têm uma única função de ser confundir nossas percepções, essas mensagens escondidas se espalham no cotidiano e nos meios, inserindo em cada palavra e imagem um outro sentido obscuro e silencioso.
Dentre todas as ferramentas utilizadas pelo governo invisível em sua dominação do mundo, está a anamorfose. Anamorfose é uma técnica para lá de antiga, lançada no século XVI, quando o pintor Piero della Francesca escreveu um estudo sobre perspectiva e ensinou a técnica – abriu-se aí a porta do inferno.
Segundo estudiosos, nossos olhos precisam de padrões para formar uma imagem. E nesse espaço que se constrói o erro, que nasce a manipulação com o objetivo de sugerir algo, não aos olhos, a mente.
A técnica trabalha com a perspectiva do desenho criando duas imagens em um único desenho, é uma reflexão por um determinado sistema ótico que produz uma imagem regular. Uma espécie de diálogo entre o fundo e a frente, uma imagem dividida em duas, uma mistura que parece confusa, mas oculta, uma mensagem subliminar, uma inversão de espelho, um trabalho minucioso e proposital de luz. Ou talvez um outro, um reflexo distorcido que crente na confiança de nosso reconhecimento nos sussurra ao ouvido palavras de dominação.
A partir daí, passou boi e boiada, a anamorfose foi largamente utilizada até mesmo em brinquedos populares no século XIX, e é claro, na manipulação de imagens com objetivos políticos, morais e até pornográficos.
A hipnose imagética que seduz e surpreende os tolos, é o toque de Midas, é a primeira impressão carregada de sentido, mas vazia em sua significação. Código secreto do emissor, desconhecido e indecifrável pelo receptor.
Veja por exemplo um expoente dessa "escola", obra do alemão Hans Holbein o quadro Embaixadores é um ótimo exemplo de anamorfose:
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Perceba que embaixo da figura há uma imagem disforme que sobra no contexto, estaria ela ali acidentalmente colocada?
A resposta é simples e direta: NÃO.
O borrado que mais parece vômito de criança é uma caveira distorcida, símbolo da morte. Os dois senhores são muito semelhantes entre si, entretanto com nuances muito diferentes. Um colorido e vivo e o outro mais austero, duas caras de uma mesma moeda, reflexo um do outro que a caveira da morte e a fragilidade da vida definiu. Interpretação essa, que deixo por ordem da minha liberdade criativa, já que na História ninguém sabe qual foi ao certo, a real intenção do autor.
É a arte do esconder, do dizer e desdizer, de falar de um escondido que conspira com o invisível que sempre está ali. São criminosos que confundem nossos sentidos e limitam nossa existência a incerteza, que faz de nós marionetes de um sistema maior que tudo, que o fisiológico, que o ideológico e que o ético.
Como diria o pequeno menino de cachos dourados: é o essencial que é invisível aos olhos.
Na psoríase passada:
A Invasão dos Ratos
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