Quem é o Eu se não aquele que narra sobre si? |
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Publicado em: 15/07/2010 |
É possível que no decorrer da vida um sujeito assume várias personificações de si
. E nem por isso será esse um caso clínico
. O eu criança é incontestavelmente diferente do eu adulto. O eu hoje poderá ser problematizado amanhã. O tempo nos modifica constantemente; os eventos da vida moldam, reestruturam, ameaçam e questionam a unidade de identificação
. A diferença que o tempo imprime na identidade não é necessariamente a negação de um anterior. Falar-se-á então de vários em vez de um.
O que significa dizer que somos vários ao mesmo tempo. O eu de hoje é um resultado do eu de ontem e de uma projeção do eu de amanhã. Simultaneamente. O desdobramento da identidade narrativa em vários implica em uma fenda temporal intransponível; de que a identidade verídica de si – se ela existe – só poderá ser conhecida com a morte.
O próprio relato do eu está condicionado a uma estruturação narrativa obrigatoriamente falsificante: afinal, o relato de si implica a reprodução dual do tempo do mundo
. A cadência de instantes será determinante para a elaboração de sentido, mas qual é a importância desse tempo reconstruído para a identidade do sujeito? Ao tentar definir a identidade através da linguagem podemos perceber que são inúmeros os agenciamentos necessários para exprimir o sentimento interior. Será uma tentativa potencialmente incessante; ora, quantas páginas terá a sua auto-biografia? E o que será realmente incontestável nela?
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