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Publicado em: 15/02/2012 |
Mira, trêmulo. Tenta adivinhar a linha – breve, exata, - entre a bola e a caçapa. Tropeça nos pés. Tem dedos de giz. Apruma-se. Toma um gole da garrafa. Uma memória de infância lhe escorre pelo queixo. Umedece a camisa. O peito. A alma. Lambe o resto da lembrança, conta-lhe os pesares, oferece as costas da mão para secá-la.
Aos quinze abandonara o teatro. Aos dezessete, a escola. Aos 32 a militância.
Abandonara a amada.
A bola erra a caçapa. Aquela caçapa mal enquadrada. Bate o taco na mesa, na quina da mesa, antes de abandoná-la. Senta-se, sem intenção, em uma quina de bancada. O chapéu da cabeça desce, honroso, a coroá-la. A tese. Aquela. Brilhante. Inédita. Escrevera até a metade. Ingênua. Envergonhava. Levanta-se, diligente, decidido a fazer a mira atinar o alvo. Encaçapa a bola. Não aquela, mas outra, por acaso. Acolhem-no aplausos. Diante de uma suposta impossibilidade humana, gerada pelo álcool, torna-se o executor do milagre. Ovacionado. Era supremo. Podia. A tese, afinal, era absolutamente válida. Todos os argumentos sobrepujam os sons da fala a parabenizá-lo. Debruçam-se sobre ele. Aliciam. Poderia. Por que não, afinal? Organizar, relatá-los. Evanescem. Rápido.
Há a amada. Chapéu na cabeça. Aquele mesmo, descontextualizado. Irá descobrir a cabeleira – devidamente lavada – para reverenciá-la. Olhos despertos, sorrir-lhe com destreza. Uma expressão facial lúcida, rápida. Entenderá no mesmo minuto o quanto ele, agora, está apto. Dedicará o texto extenso a ela, em palavra impressa e oficializada. Gerará frutos, elocubrações, frisson, análises. Promoverá um cotidiano digno de nota, documentável. Irá, mais do que convencê-la, impressioná-la.
Mas era um ébrio.
Que nada.
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