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Publicado em: 15/11/2009 |
Tão batida quanto célebre, a frase de Herman Hesse que se refere ao nascimento como morte de um mundo anterior – entendendo-se aqui nascimento como nascimento do Sujeito – é a síntese do caminho de seu personagem-conflito em Demian. Considerada como marco de transformação em sua literatura, a obra é vista como uma ruptura significativa entre a escrita inicial de Hesse, que caminhava ainda em moldes tradicionais, e a emergência de sua própria ética, sua própria estética, sua própria voz literária.
O desmoronamento interno de Sinclair é o choque anafilático que alavanca a constituição do sujeito, primeiro pelo horror da descoberta de que não se é inteiramente iluminado, conforme desejam Mamãe e Papai, conforme é Bom e Normal – segundo a carochinha – depois pelo arrebatamento causado pela sedução vitoriosa do Outro Lado anteriormente desconhecido ou reprimido, um lado que jamais é chamado à consciência pelo mundo ao redor deliberadamente, mas constantemente assediado pelo sensorial, menos organizado e moral, mais pessoal e atemporal, mais Id e menos Ego; O drástico desmoronamento de Sinclair, e sua falência diante do Desejo que passa a se reconhecer como identidade numa projeção de ideal no mítico e misterioso Demian, e a seguida profusão de novidades na percepção de mundo – interno e externo - que geram tanto indefinição quanto interesse e alívio – desviada a bigorna da opressão
– didatizam o processo de desconstrução e reinício exploratório pelo qual passa o ser humano na busca e constituição de uma identidade própria, diversa da vestimenta confortável e idealizada (dos Outros) que serve de revestimento e identificação do ego na infância.
É possível, aqui, relacionar o processo de transformação pelo qual passa Sinclair ao processo de desconstrução e renascimento literário de Hesse que tem seu início atribuído justamente a Demian. Mais ainda, é possível relacionar com outra das frases-síntese de Hesse, tão misericordiosamente capaz de explicar o incompreensível da natureza humana em um verso. A linha, neste caso, faz parte do próprio romance, e como não podia deixar de ser, tratando-se de Herman Hesse, evoca os mais antigos e míticos entendimentos de mundo e desdobra-se no raciocínio estupefato de Sinclair, quando pensa sobre o Deus Abraxas, que era metade Bem e metade Mal, e por isso era íntegro, Deus, harmônico, completo. Para entender o que pode ser um ser humano se após uma profunda e longa tomada de consciência chegar à aceitação conciliatória de que possui luz, sombra e vácuo e fragmentos conflitantes e desconexos, isso basta.
Para ponderar sobre o que existiria após a aceitação da dualidade – aspiração já pouco humilde - , para além do caminho pendular entre o Ego social confortável e as fagulhas escuras que se acomodam nas reentrâncias sob um olhar já não tão assustado e bem mais tolerante, e para além da crença de que o diferencial do humano é não estar no Id, e sim no Ego, para observar a absurda e milagrosa repetição de uma façanha
, a incontrolável e sôfrega disposição por novo aniquilamento que anula o que restou de consolo – resgate de uma primeira tomada de consciência, para imaginar o que há além de um ser humano capaz de abdicar de uma imagem de si próprio constituída, de uma falsa e irresistível sensação de não-solidão que oferece a adequação, de uma inexata sensação de segurança e controle sobre a vida, sobre o que é humano, sobre padrão e comportamento, é preciso ler O Lobo da Estepe.
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