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História da Arte Sequencial: Das HQ's aos GN's para o Cinema
Guilherme.
Publicado em: 15/07/2009

A arte seqüencial, caracterizada por narrativas fragmentadas em pequenas imagens para expressar uma sucessão rápida de acontecimentos, é um desenvolvimento natural da expressão humana que remonta os desenhos nas paredes das cavernas. Atualmente a arte seqüencial é bastante difundida na cultura de massa com as histórias em quadrinhos, as tiras em jornais e as graphic novels, chegando até a indústria cinematográfica que adapta suas narrativas.

Banda desenhada ou história aos quadradinhos ou história em quadrinhos, quadrinhos, gibi é uma forma de arte que conjuga texto e imagens com o objetivo de narrar histórias dos mais variados gêneros e estilos . São, em geral, publicadas no formato de revistas, livros ou em tiras . Historicamente, são mencionados cinco artistas precursores desta forma de arte: o suíço Rudolph Töpffer, o alemão Wilhelm Bush, o francês Georges ("Christophe") Colomb, o brasileiro Angelo Agostini, e o americano Richard Fenton Outcault, criador do Garoto Amarelo (The Yellow Kid), considerado o primeiro quadrinho da história a combinar imagens e balões de diálogos e estabelecer o formato e as convenções desta narrativa.

The Yellow Kid A primeira sequência do personagem

O Garoto Amarelo representa um episódio marcante na história da imprensa. No final do século XIX, a disputa pelo aumento de mercado entre os maiores jornais americanos acirrou uma briga entre os maiores empresários da época, Joseph Pulitzer do New York World e William Randolph Hearst, do New York Journal American. Entre as várias estratégias que estes jornais buscavam imprimir em suas páginas estavam os quadrinhos de Outcault. Originalmente publicado no jornal de Joseph Pulitzer em 1895, o Garoto Amarelo foi um sucesso pela inovação do formato, sendo o primeiro quadrinho publicado em jornal dominical nos EUA, atraindo uma massa de leitores. No ano seguinte, Hearst levou o Garoto Amarelo para seu jornal. A disputa pelos quadrinhos de Outcault marcou a rivalidade dos maiores empresários naquela década, de onde se derivou o nome “jornalismo amarelo” , caracterizado pelos apelos sensacionalistas que seduzia o leitor usando qualquer recurso possível. Curiosamente, no Brasil esta prática costuma-se chamar “jornalismo marrom” .

A arte seqüencial como conhecemos é um produto que nasce da novidade da Imprensa escrita. Se os remotos desenhos nas cavernas eram pequenas narrativas através de imagens fragmentadas, toda a história da arte é formada por pinturas e desenhos que narravam histórias e outras formas de expressão também já utilizavam o método seqüencial. Por isto, a arte seqüencial também é caracterizada pela impressão e distribuição através de formatos como revistas, jornais ou álbuns. Os primeiros materiais impressos consistiam em conteúdos religiosos, mas através dos séculos XVII e XVIII, aspectos da política e da vida social começaram a aparecer em gravuras e reproduções. A publicação dos quadros de William Hogarth é notória no desenvolvimento da história da arte seqüencial. Sua série de oito pinturas A Rake's Progress (1732-1733), publicadas em forma de gravura em 1735 conta a história de luxúria e perdição da personagem Tom Rakewell em Londres (veja imagens aqui). Mais tarde, com os avanços das técnicas de reprodução, novos artistas começaram a experimentar a seqüência de imagens para criar narrativas.

Advindo dessa sua ligação embrionária à Imprensa, a arte seqüencial se define a partir das sátiras políticas e sociais, publicadas por jornais europeus e norte-americanos, que traziam caricaturas acompanhadas de comentários ou pequenos diálogos humorísticos entre as personagens retratadas. Em 1840, estas publicações ilustradas começaram a se popularizar e as narrativas adquirem maior expressividade. Publicada a partir de 1837, Histoire de M. Vieux Bois do caricaturista suíço Rudolph Töpffer é considerada por muitos a primeira história em quadrinhos. Encartado como suplemento ao jornal dominical, consistia em 30 páginas, cada qual dividida entre um a seis quadros de desenhos acompanhados de blocos de textos abaixo das imagens. A obra foi traduzida e republicada em 1842 nos EUA como The Adventures of Obadiah Oldbuck.

Obadiah Oldbuck Max und Moritz

Em 1865, o alemão Wilhelm Busch publica os quadrinhos dos garotos Max und Moritz. A obra, sete historietas de travessuras da dupla, teve grande impacto cultural nos países de língua germânica e é até hoje contada pelos pais e referenciada na cultura de massa. Com imagens ricas em detalhes das ações dos garotos, Max und Moritz foi traduzida em diversas línguas; em inglês ficou conhecido como Max and Moritz: A Story of Seven Boyish Pranks, no Brasil foi lançado como Juca e Chico, e no Japão o livro foi o primeiro infantil traduzido do estrangeiro e publicado no país.

No Brasil, a arte seqüencial foi introduzida pelo artista italiano Angelo Agostini, que fez inúmeras charges e caricaturas de figuras políticas da época de Dom Pedro II, lutando pela abolição da escravatura. Agostini foi colaborador tanto com desenhos quanto com textos nas publicações O Mosquito e Vida Fluminense. Nesta última, publicou, em 30 de Janeiro de 1869, Nhô-Quim, ou Impressões de uma Viagem à Corte, considerada a primeira história em quadrinhos brasileira e uma das mais antigas do mundo. Em 1 de janeiro de 1876 fundou a Revista Ilustrada, um marco editorial no país à época. Nela criou o personagem Zé Caipora (1883), o que, para alguns autores, foi a primeira revista de quadrinhos com um personagem fixo a ser lançada no Brasil.

Apesar de nunca terem sido oficialmente batizados, os quadrinhos receberam diferentes nomes de acordo com as circunstâncias específicas dos diversos países em que se estabeleceram. Por exemplo, nos EUA, convencionou-se chamar comics pois as primeiras "historinhas" eram de humor, cómicas; na França, eram publicadas em tiras - bandes - diariamente nos jornais e ficaram conhecidas por bandes-dessinées; em Portugal por Histórias aos Quadradinhos (HQ) ou Banda Desenhada; na Itália, ganharam o nome dos balõezinhos ou fumacinhas (fumetti) que indicam a fala das personagens; na Espanha, chamou-se de tebeo, nome de uma revista infantil (TBO), da mesma forma que, no Brasil, chamou-se por muito tempo e – continua a ser largamente usado – de gibi (também nome de uma revista). Tudo, no entanto, se refere a mesma coisa: uma forma narrativa por meio de imagens fixas, ou seja, uma história narrada em seqüência de pequenos quadros. Nesse sentido, o nome utilizado no Brasil seria história em quadrinhos, semelhante à expressão que caiu em desuso em Portugal 'histórias aos quadradinhos'.

As décadas de 1920 e 1930 foram de extrema importância para a consolidação de uma indústria dos quadrinhos. Com o sucesso dos suplementos dominicais, os quadrinhos começaram a serem colecionados em revistas, dando origem aos primeiros "comic books". Dessa época surgem antologias como as britânicas The Dandy e The Beano, destinadas ao público juvenil. Na Bélgica, Hergé cria TinTin. Nos Estados Unidos, os suplementos experimentam novos gêneros e estilos além da comédia, com histórias de ação, aventura e mistério. Em 1938, com a publicação da Action Comics #1 e o estrondoso sucesso da primeira história do Superman, surgiu o gênero dos super-heróis, que se tornaria o paradigma dos quadrinhos norte-americanos. Em torno desses heróis mascarados, a partir da década de 1940, desenvolveu-se uma verdadeira indústria do entretenimento .

Action Comics # 1 Um Contrato com Deus

Após a publicação da coletânea de Will Eisner A Contract with God, and Other Tenement Stories em 1978, o termo graphic novel começa a ser usado para diferenciar as publicações em quadrinhos . Naquela coletânea de Eisner, as histórias eram mais maduras, complexas e destinadas a um público adulto. Com o rótulo graphic novel na capa, esta publicação estabeleceu uma nova categoria na arte seqüencial. O selo de "graphic novel" foi colocado na intenção de distingui-lo do formato de quadrinhos tradicional. Eisner citou como inspiração os livros de Lynd Ward, que produzia romances completos em xilogravura. O sucesso comercial de Um Contrato com Deus ajudou a estabelecer o termo "graphic novel", mas foi Richard Kile o primeiro a usá-lo em suas publicações CAPA-ALPHA #2 (1964) e Fantasy Illustrated #5 (1966).

O termo "romance gráfico" sugere uma história com início, meio e fim, ao contrário dos quadrinhos de histórias continuadas e seriadas. Sua definição não é estritamente definida e algumas vezes o termo é utilizado erroneamente para distinguir valores artísticos entre as obras seqüências. Por vezes, serve para dissociar trabalhos de conotações juvenis como as histórias em quadrinhos, como uma obra mais séria, madura e até mesmo literária. Porém, algumas coletâneas de histórias em quadrinhos, quando publicadas em formato livro também são equivocadamente chamadas de graphic novels. Assim foram lançadas nos últimos anos algumas coletâneas de histórias de super-heróis das editoras Marvel e DC Comics com o selo graphic novel, o que gerou bastante polêmica entre os artistas da área.

Foram lançadas antologias nestes termos pela Marvel de 1982 a 1988, com a Marvel Graphic Novel que durou 35 edições com coleções de histórias de seus principais heróis. A DC Comics, maior rival da Marvel na indústria dos quadrinhos, começou a lançar suas próprias coletâneas em forma de graphic novels. Dessa editora saiu a coleção Batman: The Dark Knight Returns (1986) de Frank Miller, um dos maiores sucessos editorais de todos os tempos, mostrando um Batman envelhecido e problemático lutando em uma Gotham corrompida. No ano seguinte, a DC lança Watchmen, onde Alan Moore explora as relações de poder num mundo pós - Hiroshima, com heróis escondidos e caçados pelo governo.

The Dark Knight Returns Watchmen

A polêmica pela adoção generalizada do termo nas publicações em livro das histórias em quadrinhos das editoras Marvel e DC gerou o manifesto da graphic novel, escrita e publicada em 2004 por Eddie Campbell. Nele, Campbell demonstra uma preocupação na valorização artística do “movimento” da graphic novel. Apesar de bem intencionado, o manifesto não repercutiu da maneira esperada pelo autor, e grandes “mestres” das graphic novels desdenharam o rigor da definição dos termos; Alan Moore disse que era um termo para marketing e que se satisfazia com os habituais “comics”. Neil Gaiman , autor da importante Sandman, fez piada sobre as diferenciações: "de repente fui informado que ela não era uma prostituta, mas uma dama da noite".

No Brasil, os gibis foram a representação mais popular da arte seqüencial. Em 1960 começou a ser publicado a revista O Pererê com texto e ilustrações de Ziraldo (mesmo autor de O Menino Maluquinho). O personagem principal era um saci e não raro suas aventuras tinham um fundo ecológico ou educacional. Também na década de 60 o cartunista Henfil deu início a tradição do formato "tira" com seus personagens Graúna e Os Fradinhos. Foi nesse formato de tira que estrearam os personagens de Maurício de Sousa, criador da Turma da Mônica ainda no fim de 1959, que pouco mais tarde ganhou sua própria revista. Já as graphic novels ganharam popularidade nos últimos anos, através de antologias e coletâneas chegadas do exterior. Entre os artistas brasileiros, vale destacar os premiados irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá que lançaram em 2007 uma adaptação em graphic novel do romance O Alienista, de Machado de Assis .

A arte seqüencial apresenta bastante similaridade com o cinema: a idéia de movimento é apresentada nas duas práticas pela justaposição de quadros (ou planos). Com a popularização dos quadrinhos e das graphic novels, o cinema mainstream tratou de adaptar algumas de suas histórias para a tela grande. Nas últimas décadas várias obras foram adaptadas com relativo sucesso. São bem conhecidas as adaptações americanas das HQs de super-heróis como Superman e Batman. Porém, foi só a partir de 2000, com o sucesso da versão cinematográfica dos quadrinhos X-Men, que o gênero dos super-heróis se consolidou nos cinemas e se tornou a franquia mais lucrativa da indústria de entretenimento. Com o aperfeiçoamento das tecnologias digitais, o cinema se viu livres das limitações analógicas e encontrou as ferramentas necessárias para reproduzir os espetáculos visuais de artistas e desenhistas da arte seqüencial. Nos últimos anos diversas publicações ganharam suas versões em cinema, dos mais populares como Homem-Aranha e Quarteto Fantástico, a obras de editores independentes como Spawn e Blade. Adaptações (e transcrições) de graphic novels também chegaram ao cinema com bastante sucesso. Sin City e 300 foram verdadeiras evoluções de linguagem nos cinemas, combinando com habilidade cenários totalmente digitais com atores em live-action.

Hoje, os maiores lançamentos dos estúdios de Hollywood são produtos de heróis e grandes personagens, e menos de astros e estrelas. Tendo este paradigma em vista, produtores dos grandes estúdios fecham acordos de distribuição e licença de direitos das editoras. Em 2007, a editora Marvel Comics abriu seu próprio setor audiovisual para produzir suas adaptações de Homem de Ferro, Hulk e Capitão América. Em 2008, BatmanO Cavaleiros das Trevas tornou-se a adaptação de quadrinhos mais rentável da história, ocupando ainda a quarta posição no ranking de bilheteria de todos os tempos, passando a marca de U$ 1 bilhão em arrecadação pelo mundo. Os últimos lançamentos inspirados em conteúdos da arte seqüencial em papel a chegar aos cinemas incluem The Spirit, uma das publicações mais cultuadas de todos os tempos, criada por Will Eisner e cuja versão foi dirigida por Frank Miller (autor de famosas graphic novels); Watchmen, obra-prima de Alan Moore lançadas nos anos 1980, e X-Men Origens: Wolverine que conta a origem do mutante mais famoso dos quadrinhos. Muitas outras adaptações são esperadas para os próximos anos.


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