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Homens Que Não Amavam as Mulheres
David Fincher dirige adaptação americana para o best-seller de Stieg Larsson.
Guilherme.
Publicado em: 25/01/2012

Para quem é fã dos livros de Stieg Larsson e especialmente da primeira adaptação cinematográfica da trilogia Millennium (produzida e lançada em 2009 na Suécia), a expectativa de conferir a versão americana está em saber qual é o tratamento e a visão de um outro diretor no comando da história. Comparar as duas versões é inevitável para quem assistiu à excelente adaptação sueca, mas se os americanos não conseguiriam superar o filme original, é bom perceber que também não ficam muito atrás. Isso se deve, em grande parte, porque este Homens Que Não Amavam as Mulheres americano conta com a direção firme e segura de David Fincher, um dos melhores storytellers de sua geração.

A narrativa da investigação de Mikael Blomkvist (interpretado aqui pelo bond Daniel Craig) sobre a família Vanger a pedido de Henrik (Christopher Plummer), que procura resolver o misterioso desaparecimento de sua sobrinha Harriet, tem um desenvolvimento envolvente e condizente à trama elaborada por Larsson; a boa fotografia e a esperta edição estabelecem um interessante tecido para a história e possibilita ao filme ter sua própria identidade para além das comparações. O que significa dizer muito bem desta adaptação. Há, porém, algumas modificações (sensíveis) de roteiro que não se justificam: alguns lances da investigação e algumas correlações da história são expostos de forma muito direta (desmerecendo a inferência e o jogo de prospecção da história por parte do espectador) - este pode ser o caso de quem já conhece o resultado e todo o contexto da história, mas algumas exposições da trama são mesmo muito cruas. A motivação de Lisbeth para trabalhar com Blomkvist também é contada em uma cena pobre e didática que quase a faz falar sobre a decisão de ajudar no caso. E o final da perseguição da heroína ao vilão em fuga tem um resultado bastante inferior à cena do filme sueco - qual é a razão para o esvaziamento dramático: eliminar a catarse, o sentido de transferência e emblemático da questão de Lisbeth?

Temos, enfim, a questão central desta adaptação: a heroína e musa underground Lisbeth Salander nos traços de Rooney Mara. Sabendo que seria impossível evitar o fantasma de Noomi Rapace na tela, todo o esforço está em identificar no trabalho de Mara o seu entendimento sobre a personagem. E quer saber, acho que ela consegue expressar uma concepção de Lisbeth com sua interpretação. Há momentos em que ela alcança aqueles lugares obscuros do caráter de Lisbeth: há mais nos seus silêncios do que em seus gestos ou ações, mas Lisbeth está lá. E esse é o maior elogio que eu poderia fazer a ela. Mara não tem, porém, o rosto forte e expressivo de Rapace - a diferença entre as duas parece estar mesmo em níveis de força e inteligência: a Lisbeth de Mara passa uma imagem insegura e desprotegida, enquanto Rapace expressava mais esperteza e determinação.

Para quem não conhece Lisbeth, Larsson ou Rapace, e que se aproxima deste filme sem referência prévia, irá encontrar uma obra intrigante, adulta e bem produzida. A trama de suspense e mistério, e suas ramificações das mais horríveis violências, comenta um estado da contemporaneidade e a dívida (histórica e individual) com o passado - fazendo de cada encontro, de Blomkvist, Lisbeth, com a família Vanger ou com o imoral Nils Bjurman, uma compreensão da herança social. O autor Stieg Larsson morreu jovem, aos 50 anos, e deixou apenas três obras da heroína Lisbeth; o melhor que esta adaptação poderia fazer é divulgar a trilogia Millennium a um público ainda maior - e não apenas pelos livros, mas também pelas ótimas versões cinematográficas anteriores (e o segundo longa da trilogia sueca, A Menina que Brincava com Fogo, é um favorito pessoal). Seja com Michael Nyqvist ou Daniel Craig, com Noomi Rapace ou Rooney Mara, as versões coexistem e ampliam a leitura sobre o jornalista Mikael Blomkvist e nossa hacker favorita Lisbeth Salander. Por fim, não poderíamos esperar nada mais do que isso, a adaptação cumpre o que promete e faz jus ao material e à memória de Larsson.

Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres 
(The Girl with the Dragon Tattoo, EUA/Suécia/Reino Unido/Alemanha, 2011)
Direção: David Fincher.
Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgård, Robin Wright, Steven Berkoff, Joely Richardson, Geraldine James, Goran Visnjic, Yorick van Wageningen, Elodie Yung, Joel Kinnaman e Alan Dale.
Duração: 158 min.

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