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Howards End
Carolina.
Publicado em: 15/02/2012

Trajado para a ocasião – estamos na Inglaterra, na aurora no século XX - Leonard Bast estica o braço pela grade. Ellen, para além do alcance de um enlace, não consegue entende-lo. Ele não tem palavras.

O sonho de Leonard, que dá aos constrangimentos sociais da diversidade de classes e ao cárcere do fado seus tons genuínos de vermelho sangue é o símbolo cardíaco da problemática da obra. Publicado em 1910 (romance do autor E.M. Foster), Howards End é filmado em 1992.

Com o peso de um elenco denso e a significação simbólica de cenas como a supracitada, a obra propõe para a problematização dos ditames econômico/sociais de época a estrutura da tragédia grega; perfeitamente equilibradas, a dinâmica do enredo e a inexorabilidade da condição humana pelo caráter opressivo da organização político/econômica/social – a tomada fechada e lenta sobre o que seria a despedida casual diária, de um esposo à sua esposa, às portas do horário de sair para o trabalho entrega o desfecho de uma promessa de retorno fadada à frustração (aquela de Leonard para Jackie) – atingem, sem delongas teóricas, o ponto sensível de tensão entre as possibilidades potenciais do indivíduo e as limitações reais que o afastam do que se caracteriza como desejo e identificação. Indo além, a obra aponta o dedo inclemente para a identidade concreta da ruptura entre sujeito e realização: a estrutura social que se organiza de forma a satisfazer as aspirações egoicas de uns em detrimento das de outros . Mais do que isso, evidencia a inexorabilidade de uma estrutura que endossa sua continuidade – como o herói trágico diante dos deuses e de seu destino, Leonard encontra sua desgraça ao deixar que sua identidade desafie o destino socialmente traçado . Para Ellen, reflexo de Leonard – perfeita inversão e confluência – Howards End garante, pela mesma via, o espaço da marginalidade.

Em uma das inúmeras tomadas fechadas em que figura exclusivamente, em Howards End, a flora, a obra extravasa seu sumo ressignificando a personalidade da casa, sua ampla personagem: flores do campo – serão margaridas? –balançam a revolta em sua jangada de terra, evocando, para um paralelo humanizado, a natureza mítica escravizada pela civilidade e o contraponto de sua liberdade, para um paralelo triunfante com as vicissitudes da humanidade. Retorno a Howards End é o épico de uma inexorável cilada.


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