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Publicado em: 15/12/2009 |
O inverno é triste
. A despeito de preferências pessoais que podem se opor à afirmação, há uma unanimidade que agrupa certos elementos sob a mesma definição; o cinza, o frio, o escuro, a ausência de calor e plantação combinam- se com o silêncio e o recolhimento. A luz, as cores, o calor, as flores, agrupam-se sobre o movimento e a extroversão. No Oriente, no Ocidente, no Tao. Na Grécia Antiga, etiquetavam-se os grupos sob a alegria e a tristeza de uma Mãe; sua filha não saiu ilesa do passeio, um belo dia; caiu às vistas de Hades, sob seu olhar de submundo, que carregou-a para seu reino de profundezas a fim de desposá-la. O luto de Deméter derramou-se sobre a Terra, lágrimas de neve, esterilidade de indiferença. Para que a vida não perecesse por completo, Zeus intercede junto ao Deus Irmão Senhor dos Infernos, e está feito o acerto: Perséfone volta para os braços da mãe por um período de seis meses – quando a Terra floresce e procria junto com o coração da genitora, mas deve retornar quando finda o prazo para os braços obscuros de seu marido – enlutando novamente a Deusa da Fertilidade, em um sem-fim que rege a natureza. É emocionalmente que o mundo se entende; antes de Perséfone, Deméter e Hades habitarem o entendimento na Grécia Antiga, Adônis, disputado por duas deusas febrilmente apaixonadas, morria e ressurgia, oscilando entre os domínios de uma e outra, raptado por uma, seqüestrado por outra, movimentando a natureza da mesma forma em todos os lugares, inclusive na Mesopotâmia. Morrer e reviver com Adônis era o destino cíclico da natureza; assegurar-se de que a vida voltaria depois do período de estiagem era necessidade primordial do ser humano, que passou a representar o ritual de novo e de novo, a estação de colheita, a cada momento de transição climático entre as duas estações da vida e da morte. E assim Adônis passa a ser morto e ressuscitado deliberadamente em rituais e representações que procuram garantir um pão vindouro.
Aparenta ter a vassoura do tempo exilado esse sentido primevo em um passado longínquo; ledo engano – nem mesmo a oposição do catolicismo poderia tê-lo feito; sabia disso, e, ao invés de rechaçar os deuses em nome do monoteísmo sagrado de seu cerne, acolhe-os, nas tradições do povo
– e assim Adônis permanece, cumprindo a promessa do ritual, eterno renascido nas festas Juninas - que inauguram o inverno - e pequenos rituais e brincadeiras que mais de uma moça cristã costumava (costumava?) fazer para ter um marido, brincadeiras essas que não se reconhecem, mas originam-se nos rituais de fertilidade que garantiam a colheita na Antiguidade...
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