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Ela era uma loira alta

Carolina.
Publicado em: 15/01/2010



      Ela era uma loira alta. Era bom que fosse. O pior trabalho que você pode pegar é "seguir a mulher". Nessas horas, você começa a pensar que o chefe do departamento está tentando dizer que você já era.

      Aconteceu assim: Blue Chilli andava fazendo concorrência com a máfia. Era a primeira vez na história em que a polícia e a "família" estavam de acordo: nós queríamos Blue Chilli. Eles queriam Blue Chilli. E, sem saber, eles iam nos ajudar.

      Bertrand, que cuidava dos assuntos da família na região, tinha um plano para encurralar Blue Chilli: Ingrid era a isca. O chefe achou que seria mais divertido deixar que eles fizessem o serviço como queriam e esperar para aparecer na hora de puxar o gatilho. Então, eu tinha que seguir Ingrid. Bertrand queria que ela seduzisse Blue Chilli. Ela deveria servir de bibelô até que ele tivesse soltado tudo no caminho entre a cama e o bar e ela soubesse de todas as atividades que ele desenvolvia. Quando Ingrid desse o sinal, ele ia virar presunto. E as suas atividades continuariam funcionando. Para Bertrand. Esse, claro, era o plano dele. Mas essa era a parte do plano da qual o chefe não gostava. Ele preferia pegar Bertrand no momento em que ele estivesse assoprando o cano do revólver. Mas para que tudo corresse bem, eu precisava seguir Ingrid.

      Era a terceira vez que ela ia para o mesmo lugar. Parou na portaria do prédio, apertou o botão que dizia 51 e esperou. Alguns segundos depois, sussurrou com sua voz rouca: sou eu. A porta do prédio se abriu e ela entrou. Dessa vez eu também entrei. O cheiro de Ingrid era doce. Ela desceu no quinto andar. Desci atrás dela. Ela apertou a campainha do apartamento 51. Eu me virei de costas e apertei o 53. Alguém abriu a porta rapidamente e puxou-a para dentro, chaveando o apartamento em seguida. Balancei a cabeça. Blue Chilli não era nada discreto. Ouvi um barulho no apartamento que eu havia usado como disfarce e me preparei para fazer uma pergunta idiota ao dono da casa quando Nancy abriu a porta. Me olhou com seus olhos morenos. Nancy Spacer. Há cinco anos precisei tirá-la dos bares e de sua tentativa de entrar para o showbiz. Ela era menor de idade. Tirei-a dos bares e levei-a para a cama. Fiz os cálculos na cabeça. 21. Era a idade que ela devia ter agora. Sorri com o canto da boca, acendi um cigarro e resolvi entrar. Nancy limpava as mãos no avental rendado.

      - Está sozinha?
      - Eu...você quer conhecer a casa?

      Passei o braço ao redor dos ombros morenos e deixei-a levar-me para conhecer o quarto.

      Desci as escadas antes que lngrid o fizesse. Olhei o relógio. Ela ainda ia demorar. O ar estava frio. Levantei a gola do casaco. Havia um bar em frente ao hotel. Entrei, escolhi uma mesa perto da janela, pedi uma dose de conhaque e esperei. Se meus cálculos estivessem corretos, Ingrid sairia do prédio em 45 minutos.

      Duas horas depois ela saiu do prédio vestindo um casaco longo por cima do vestido. Ou da pele. (Comecei a desconfiar de que ela estava gostando da brincadeira.) Entrou no bar. Caminhou em minha direção, parou, estendeu o cigarro.

      - Tem fogo?

      Ela era a loira alta com a voz mais sexy que eu já ouvi. Acendi o cigarro dela. Seu cheiro doce misturava-se com o da bebida. Ela perdeu o equilíbrio e apoiou-se em meu braço.

      - Posso me sentar com você?

      Era mesmo uma loira alta.

      - Desculpe, boneca, estou esperando alguém.

      Levantei-me e fui até o banheiro. Procurei no bolso o papelzinho que Nancy rabiscara. Tinha um número de telefone e dizia "ligue pra mim". Fui até o balcão do bar e pedi o telefone emprestado. Era nos fundos, e Ingrid estava bêbada demais para reparar em alguma coisa.

      - Nancy? Claro que eu ia telefonar, garota. Não? Eu nunca telefonei? Então temos que remediar isso. Não quer descer até aqui? Estou. Ok, garota.

      Pus o telefone no gancho e voltei para minha mesa. A loira alta ainda estava lá.

      - Ok, boneca, pode ficar com essa mesa para você.

      Peguei meu copo e sentei em uma mesa do canto. 15 minutos depois Nancy entrava pela porta do bar. Ingrid já estava no terceiro copo. Será que Blue Chilli era mais do que bonitinho aos olhos daquela garota? Nancy tinha soltado os cabelos cacheados e vestido um vestido branco. Ela era mesmo bonita. A pele morena e as curvas redondas. Sentou-se ao meu lado com um grande sorriso. Ingrid lançou um olhar de desdém. Era daquelas mulheres que não admitem uma rejeição. Falei com a garota durante meia hora. Ingrid continuava bebendo. 45 minutos. Ingrid soltou uma exclamação de desdém. Olhei para a porta. Era um dos guarda-costas de Bertrand. Nancy tinha sido uma boa idéia. O gorila pegou Ingrid pelo braço e forçou-a a se levantar. Ela mal conseguia parar em pé. Alguma coisa estava errada. Ele puxou-a para fora do bar. Olhei a conta, joguei as notas na mesa, dei um beijo rápido em Nancy.

      - Desculpe a pressa, garota, mas tenho que ir.

      Ela ainda murmurou alguma coisa, mas eu não pude ouvir. Deve ter sido "eu te amo". Elas sempre dizem isso.

      O gorila de Bertrand estava enfiando Ingrid dentro de uma limusine estacionada ao lado de um orelhão. Encostei no orelhão e fingi dar um telefonema.

      - Podemos arrumar qualquer vagabunda para fazer o que você está fazendo e ela vai fazer melhor! Você não me engana, garota. O que você está querendo é atrasar a viagem do chefe. Pelos nossos cálculos ele deveria estar saindo do país amanhã e você vem dizendo que não arrancou nada do Blue Chilli De Merda! Seu trabalho é abrir a boca dele, não as calças! Ninguém te ensinou que isso é só uma estratégia?

      Então o plano era "roubar" Blue Chilli e sair do país...

      - Está me olhando com essa cara por quê?!
      - Acho que vou vomitar...
      - No meu carro não!

      O gorila empurrou Ingrid para fora. E foi então que ele me viu. Fechou a porta com força e arrancou. Era mesmo um idiota. Bertrand escolhia mal. A fumaça do cano de escape cobriu o corpo de Ingrid. Resolvi prolongar a brincadeira. Talvez eu tivesse uma surpresinha para o chefe. Coloquei o telefone no gancho. Ingrid soluçava.

      - Tudo bem com você, boneca?

      Ela segurou-se nos meus braços. Levantei-a do chão. O joelho direito aparecia por baixo do casaco, esfolado.

      - Preciso ir ao toalete.

      Torci para que Nancy não estivesse mais no bar e carreguei Ingrid até lá. Levei-a até a porta do banheiro e esperei.

      - Melhorou?

      Ela assentiu com a cabeça enquanto acendia um cigarro. Eu tentava adivinhar se o casaco estava mesmo por cima da pele.

      - Como é o seu nome, boneca?
      - Katherine.
      - Quer me contar o que aconteceu...Katherine?
      - Podemos sair daqui?

      Chamei um táxi.

      - Para onde, boneca?

      Fomos para a casa dela. Ela sentou-se rio sofá e cruzou as pernas. Seria a fenda do vestido? Ou era mesmo só o casaco?

      - Alguém está tentando me matar.

      O que aquela beldade loira e mentirosa estava pretendendo?

      - Esses homens me contrataram para uma investigação, mas assim que ela estiver terminada eles vão me matar. Eu sei disso porque ouvi o homem que me contratou sussurrar coisas assim atrás da porta. Ele estava falando com o homem que você viu me jogar para fora da limusine. Eles conversaram sobre tudo a um passo de mim. O homem que me contratou pensou que eu estava dormindo.

      Nesse momento ela enrubesceu. Não era só a Blue Chilli que ela vinha entretendo ultimamente, então. Em seguida, seus olhos encheram-se de lágrimas. O que ela dizia era verdade. E também muito típico de Bertrand. Acho que ele não sabia realmente para que serviam as mulheres. Ou não sairia por aí matando as beldades que conhecia. Ela cruzou as pernas, e o casaco (talvez também a fenda do vestido) abriu-se até a metade da coxa. A sala pareceu-me insuportavelmente quente. Por que me contar tudo aquilo? Ela estava desesperada, isso era verdade. Mas não parecia pura imprudência o fato de ela estar falando comigo. Era intencional.

      - E o que você pretende fazer, Katherine?
      - Eu não sei... Eu tenho evitado dizer-Ihes qualquer coisa. Já sei o que eles querem saber, é lógico, mas digo que não. Mas isso não é suficiente... Consegui ganhar algum tempo, mas eles estão começando a desconfiar... Se ao menos eu tivesse alguém para me proteger...

      Ah, então era isso. Eu era um trouxa suficientemente forte e cavalheiro aos olhos dela para salvar a donzela em perigo. Provavelmente já era o que tinha em mente quando dirigiu-se a mim no bar, antes que o gorila aparecesse. Seu cheiro era realmente doce. Era interessante pensar em um final feliz. Eu escoltava a donzela até o covil dos leões, salvava-a de todos eles e dava Blue Chilli e Bertrand de presente para o chefe. Depois, nós comemorávamos a dois, e eu teria o que fazer nos finais de semana por um bom tempo. Só tinha um problema: ela também era máfia. Portanto, só me restava uma coisa a fazer.

      - Você quer minha ajuda, boneca, é isso?
      - Eu posso recompensá-lo.
      - Tenho certeza de que sim... Ok, vou salvá-la, donzela. Mais preciso que me conte tudo. Ou nada feito.

      E ela contou. Contou mentindo, mas contou o que eu queria saber: que Blue Chilli era dono dos Cinco. Eram chamados assim por serem cinco bares de fachada limpa e clientela da elite que acobertavam o maior fluxo de jogo, tráfico e bebida da história. E eram cinco por que era uma boa forma de driblar o possível flagrante que a polícia esperava há tanto tempo. Então Os Cinco eram de Blue Chilli e Bertrand os queria para si. Agora eu sabia exatamente que bares eram. Era a única informação que o chefe não tinha. E eu acabara de descobrir.

      - Tudo bem, boneca. Eu te digo o que fazer e você obedece, ok?

      Ela assentiu com a cabeça, submissa.

      - Amanhä você vai desculpar-se com seu chefe. Vai dizer que ficou gamadinha no cara e por isso estava sendo difícil levar o serviço até o fim. Vai contar para ele o que você descobriu. Vai dizer para o seu chefe que você vai estar "tomando conta" do Sr. Problema para ele no dia seguinte. Vai dizer também que é para ele mostrar a cara e fazer o serviço às duas horas da manhã no lugar onde você se encontra freqüentemente com o Sr. Problema. Aonde é?
      - No apartamento dele.
      - Ok. Você vai me dar o endereço. Eu vou chegar lá antes do seu chefe. Você vai deixar a porta aberta. E então eu resolvo o seu problema. Ok, boneca?
      - Como vou saber se você vai fazer tudo como está dizendo?

      Mas eu sabia tão bem quanto ela que aquilo era dispensável: ela estava desesperada. Não tinha outra alternativa. De qualquer maneira, ela fez o que achava que tinha que fazer para garantir sua própria segurança. A lua estava alta quando saí da casa. Joguei no lixo o papel com o endereço do apartamento de Blue Chilli. O casaco estava mesmo sobre a pele.

      Fui até o escritório. O chefe estava dormindo com a boca aberta e os pés em cima da cadeira. Tirei o trinta e oito que ele carregava na cinta, apertei o nó da eterna gravata marrom que ele tinha no pescoço, enchi um copo com conhaque, sentei-me de frente para ele e esperei que acordasse por causa do desconforto. E da falta de ar. Ele acordou sobressaltado, tentando afrouxar a gravata com uma das mãos e procurando o trinta e oito com a outra. Então me viu.

      - Filho da Puta! Um dia você vai acabar me matando com essa merda.

      Esticou a mão com as unhas roídas e virou meu conhaque com um gole. Mania cretina.

      - O que é?!
      - Os cinco são de Blue Chilli. Ele deu um soco na mesa
      - Eu sabia!
      - Sabia nada, chefe.

      Fechei a porta atrás de mim e fui para casa fumar os charutos importados que ganhei do chefe depois do caso do Red Parrot.

      Meia-noite. Desliguei o chuveiro, vesti roupas limpas, carreguei o revólver e fui para o apartamento de Blue Chilli. Testei a maçaneta. Porta aberta. Empurrei-a silenciosamente. Blue Chilli ria e sussurrava. lngrid tentava se desvencilhar das investidas cada vez mais insistentes. Ingrid me viu e não conseguiu disfarçar a expressão de alivio, mas Blue Chilli estava muito bêbado para perceber qualquer coisa. Apresentei a coronha do revólver à nuca do gângster. Bons sonhos, Blue Chilli. Arrastei-o para o banheiro, tranquei a porta por fora e meti a chave no bolso. Levei Ingrid para o quarto.

      - Mas...eles vão chegar a qualquer momento!
      - Ainda temos pelo menos uma hora e meia.
      - Mas...
      - Deixe comigo, boneca.

      1:45. Alguém entra no apartamento. Tapei a boca de Ingrid com a mão para abafar o grito.

      - Calma, boneca, ou vai estragar tudo. Não saia daqui.

      Vesti minhas roupas e saí do quarto. Minha equipe já estava acomodada.

      2:00. Bertrand entra no apartamento falando grosso e escoltado por dois gorilas. Hacker coloca uma arma atrás da cabeça de Bertrand.

      - Você está preso.

      Hacker morre. Um dos gorilas metralha os móveis da sala tentando eliminar possíveis acompanhantes de Hacker. Lander acerta um dos gorilas na cabeça. Ele treme as bochechas gordas e cai estático, de cara no chão. O outro gorila olha para todos os cantos da sala tentando descobrir de onde veio o tiro. E Bertrand...Merda! Bertrand é o braço em volta do meu pescoço. Bertrand está rindo sua risada fina. Vou morrer.

      - O que o fez pensar que eu ia preferir seu chefe a você, seu cretino? Hein? Por que não responde? Não consegue respirar? É por que eu ainda não decidi se deixo meu braço em volta do seu pescoço ou se puxo o gatilho. Quem sabe? Acho que aperto seu pescoço até você se mexer e então puxo o gatilho. O que você acha? Até quanto tempo será que você agüenta? E depois... bem, depois eu vou atrás daquela cadela. Eu sabia que ela ia trair o combinado. Devia ter imaginado que ela estava andando com tão más companhias...

      A risada fina de novo. Minha visão estava ficando turva. Meu coração parecia pulsar dentro do cérebro.

      - Que vergonha, Delmore.., não pode ver um rabo de saia, não é? Sabe como chamam você na família?
      - Ei, Delmore!

      Era o gorila que ainda estava vivo e que tinha colocado Lander para dormir. Mirou minha testa com a arma. Bertrand tirou o revólver da minha nuca para apontá-lo para o gorila.

      - Ele é meu, seu imbecil, cuide do chefe!

      Última chance. Dei um soco no estômago de Bertrand. O gorila disparou a arma. Acertou meu braço esquerdo. Merda. Corri pro banheiro. Procurei a chave no bolso. Abri a porta. Entrei e tranquei o banheiro por dentro. A essa altura Bertrand berrava para que eu abrisse e metia tiros na porta. Blue Chilli passou de desmaiado a morto. É, ao menos isso Bertrand conseguiu. Matar Blue Chilli com as próprias mãos. O gorila ficou para trás para cuidar do chefe, que ele não fazia a menor idéia de onde poderia estar. Meu braço sangrava tanto que eu não sabia mais se aquele sangue todo era meu ou do Blue Chilli.

      - Tudo bem, eu vou sair.

      Minha voz estava rouca. Bertrand tinha machucado minha garganta com seu braço gordo. Abri a porta e Bertrand descarregou toda a munição no vulto que saia do banheiro. Que era Blue Chilli. O morto caiu em cima de Bertrand, que olhava assombrado para o que tinha restado do seu maior rival. Olhou para mim. Para o cano do trinta o oito. E morreu. Fui para a sala. O gorila estava algemado. Lander massageava a mão que o gorila tinha tentado esmigalhar com os pés.

      3:00. O chefe entra no apartamento.

      - O que... Mas o que... Vocês me disseram o horário errado de novo!

      O chefe prepara-se para fazer seu discurso furioso.

      - Espere, chefe. Tenho uma coisa pra você.

      Merda de voz rouca! Ele xingava baixinho enquanto eu explicava o assunto. Levantei a voz.

      - Lander, vou cuidar do meu braço. Toma conta das coisas junto com o chefe.

      Ele balançou a cabeça. Quando estava saindo, esbarrei em um morto caído no chão. Era Hacker. Estava branco como um fantasma e com os olhos arregalados. A festa deixou de ter tanta graça. Fechei os olhos dele. Tinha uma foto da esposa dentro da carteira. Fechei a porta atrás de mim.

      Não aconteceu nada de muito sério com o braço. Precisei de uma cirurgia para tirar a bala, alguns pontos e repouso. Essa foi a pior parte. Nenhum esforço físico. Naquela noite, a equipe de segurança da delegacia entrou nos Cinco e conseguiu fecha-los. Mas ao que parece as atividades foram transferidas para algum outro lugar. Um dos homens da equipe de segurança provavelmente vendeu seus serviços para a máfia. O problema é: se Blue Chilli e Bertrand estão mortos, quem é o proprietário atual?

      Hacker foi enterrado no dia seguinte. Jéssica está inconsolável. Talvez eu devesse fazer uma visita.

      Lander está com um problema na mão que o gorila esmagou. Mas não é nada grave. O gorila está enjaulado, como deveria ser. Blue Chilli, Bertrand e o outro gorila? Legítima defesa.

      A garota? Bem... na verdade, ela deve ter achado que as algemas eram só um fetiche. Mas acho que o chefe explicou tudo.


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