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Melancolia
Lars von Trier ressuscita uma estética digna de filmes antigos, de um cinema que não existe mais.
Carolina / Elisa.
Publicado em: 11/09/2011

Da melodia de Wagner, emprestada da obra Tristão e Isolda, o diretor ressucita uma estética graciosa e doce, digna de filmes antigos de um cinema que não existe mais. Enquanto todo o cinema, em êxtase desde sua criação pelo seu poder de reproduzir em imagem algo muito aproximado da impressão visual do real, despreza a virtude poética descoberta no teatro, Lars von Trier, plenamente consciente do abismo identitário entre as duas linguagens, resgata, contudo, a densidade poética do gestual humano – tão clássica do bom teatro e tão escassa na atualidade - dentro das possibilidades de superação visual da obra cinematográfica, criando suas insuperáveis singularidades.

Como toda obra do dinamarquês, Melancholia é também um chute no estômago, um murro, um pontapé. O filme é pretensioso, mas não fica devendo. As analogias que percorrem a narrativa dão a ela ainda mais graça e o peso fica por conta da realidade que ela retrata. Harmônica ao universo do criador, ela exige do espectador a mesma disposição do diretor: o mergulho. Eternamente avesso a banalidades, Lars von Trier oferece um iceberg: a ponta projetada na tela se sustenta, evidentemente, sobre uma gigantesca estrutura de entendimento teórico/empírico explorado. Por isso o possível estranhamento de quem espera, com o conceitual do lugar comum, identificar na narrativa a proposta do título. Mas ela está lá, enfim.

É da angústia de existir, da qual todos levianamente afirmam sofrer em algum momento, em seu fadado destino, que Lars von Trier se utiliza para contar a história de Justine, ou melhor, a história do planeta Melancholia.

Aos olhos dos ignorantes, Justine pode passar despercebida ou percebida demais. E mesmo este aspecto que, num momento de reflexão breve, pode parecer um infortúnio, a paleta do autor gastou-se em cuidados: Lars von Trier conhece, apresenta, mas não superestima a relatividade: advoga em defesa do entendimento e contra um julgamento estereotipado, mas oferece a visão pela lente do comum da realidade, com a agudez incômoda e desagradável com que naturalmente será sentida a protagonista pela trivialidade, como se esta fosse a leitura última e única de sua identidade. Mas quem percebe demais é ela: sua visão além do alcance lhe inflige um fardo que poucos suportariam; tendo como consolo o eterno desconsolo, ela não teme Melancholia, pois é o que já conhece em frente e verso. No que consensualmente seria etiquetado como nonsense pelo leitor desavisado, o diretor não pecou na ausência de nenhuma indicação de como se construiu, no âmago da sociedade – do familiar para o expansivamente comunitário, a complexidade letal de sua personalidade. Sem furtar-se à sua própria genialidade, Lars von Trier consegue fazê-lo, ainda, com a facilidade absoluta e simples de lançar mão de um momento único - ato de matrimônio contratual - como alegoria da longa estruturação de uma identidade.

Já Claire, a irmã contenciosa, pacienciosa, vê o fim logo adiante, quando o planeta azul desponta em seu horizonte, como contraposto, oposição ao seu entender do real da vida. O que fazer quando se tem ao calcanhar a iminência do fim, e não é a isso que se está acostumado?

Melancolia 
(Melancholia, DIN/SUE/FRA/ALE, 2011)
Direção: Lars von Trier.
Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt, Alexander Skarsgård e Stellan Skarsgård.
Duração: 136 min.

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