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Publicado em: 15/09/2009 |
Ontem chamei o Dean para uma cerveja. Convidar o Sam para juntar-se a nós seria perda de tempo; ele nunca foi um grande adepto e, de qualquer maneira, ouvi dizer que andou nessa de beber sangue. ![]()
Ele demorou para me ver; havia qualquer amostra alimentícia sendo distribuída, e a ofertante tinha longos e publicitários cabelos escorrendo sobre os ombros de seu longo e publicitário corpo. Além disso, Dean ocupou-se em experimentar a qualidade das amostras unidade por unidade, até que não restasse nenhuma
. Passada a euforia, sentamo-nos eu, O Dean e a cerveja. ![]()
Dessa vez o Dean teve um momento não divertido. Tinha aquele jeito sisudo de às vezes e um olhar distante, quase lacrimejante. No momento em que me percebeu percebendo-o, fechou a expressão naquele meio bico de valente que sempre tenta reforçar com o aproximar de sobrancelhas, deu uma leve sacudida na cabeça e me ofereceu um reconfortante tapa no ombro
. Mas eu sabia que era o irmão nem tão mais velho que estava ali, perdido entre um “Sim, Senhor” para um superior a ser localizado e um “Não faça isso” para um não tão menor a ser orientado. De qualquer maneira, não haveria melhor companhia possível para o desfecho compensatório de um dia frustrante do que esse maior abandonado que mastiga sempre com a boca aberta
. A não ser que fosse um daqueles outros momentos, raros e agudos em que não é possível raciocinar sem que alguém externo explique, olho-no-olho, o que está acontecendo com você, explicando e perdoando ao mesmo tempo, agregando ao momento de iluminação uma orientação bem conduzida e segura com garantia de acompanhante para o caminho. Mas, se fosse esse o caso, talvez eu não pedisse cerveja. E certamente chamaria o Sam.
É verdade que não são sempre a companhia idealizada, naquelas vezes em que as histórias que tem a contar são rasas como não se espera, ou quando estão chatos, ou surpreendem com uma nova nuance de personalidade diferente da estamentada. Mas esses momentos são raros e, de qualquer maneira, nessas horas também ainda são meus queridos atormentados, que se angustiam com suas próprias sombras mais do que com as combatidas na função diária, que, Dom Quixotes heróicos, tropeçam em si mesmos em uma busca infantil do Melhor que nunca é abandonada, que acendem a luz na cara do que os deixa aterrorizados, que convivem com a fascinante possibilidade de ter como cotidiano o assombrado - que às vezes é desafiador, às vezes, como rotina, é seu enfado - que no clímax de um momento padrão de medo conseguem dar risada
, que vivem no avesso do científico e são, ainda assim, tão humanizantes humanizados, e continuo a amá-los.
Além de suas personalidades cativantes e a pior trilha sonora da história que vive a acompanhá-los, Sam e Dean são protagonistas das melhores histórias da Humanidade; não faltam nem sobram seres escuros e iluminados, que eles caçam e que vivem a caçá-los. E se lhe parecer demasiado descabido o momento a ser narrado, não se preocupe – eles vão explicá-lo. E você, surpreendentemente, estará convencido.
Seus perseguidos e perseguidores são histórias muito antigas das quais eles conhecem as justificativas para reavivá-las, sabem o como e o porquê de suas raízes e suas asas. E todas elas, assim tão bem costuradas, estão impressionantemente vinculadas aos atrozes comuns do dia-a-dia, do contemporâneo desorientado e inenarrável – combinam com os descaminhos, explicam os desatinos, relembram o humano do que faz falta e do seu errado.
É assim que a melhor mitologia resiste e se assiste, que os grandes temas religiosos não vem estereotipados nem precisam ser rechaçados, sem oferecer riscos para a consistência do que é contado – e sem deixar de ser parte irrepreensível do que vai sendo representado; da mesma forma que se ensina que folclore é constante e não está no passado, que imaginário e sujeito estão aliados, que o medo é multicolorido, que o horrível é interessante e interessado, que o maniqueísmo é um engodo há muito fracassado, que o assustador às vezes sublima; às vezes não pode ser superado.
Supernatural é uma série televisiva criada em 2005 por Eric Kripke e transmitida pela The CW, rede de televisão dos Estados Unidos da América. No Brasil, é exibida pelos canais a cabo e aberto, respectivamente Warner Channel e SBT. Conta a história de dois irmãos quje viajam o país, lutando contra criaturas cuja existência é desconhecida pela maioria das pessoas. Sam e Dean Winchester percorrem o mapa norte-americano em um chevrolet Impala preto investigando situações sobrenaturais e outras ocorrências inexplicáveis, muitas delas baseadas na crença popular, mitos e lendas urbanas.
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