A fada do dente arrancou o meu molar. |
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Publicado em: 15/02/2010 |
Na porta entreaberta habita o monstro desconhecido. Sempre a espreita ele espera o momento mais propício para atacar.
Quem nos livrará desse vulto ameaçador que tira o sono? Entre a penumbra e a escuridão ficam as criaturas que invadem nosso sono e nos carregam para a escuridão.
Enquanto isso, heróis, caçadores, príncipes e mocinhos se escondem dentro das páginas das histórias de fazer dormir das quais sempre esperamos ansiosamente que eles saiam e nos livrem de todo o mal.
Fomos pautados a tocar no ritmo da grande orquestra da vida até os dedos calejarem. Mas os calos nada nos trazem de aprendizado, apenas um sofrimento gratuito e despropositados daqueles que nos fazem tocar.
De origem ímpia, as histórias fantásticas se adaptaram ao meio e evoluíram de acordo com as necessidades impostas pela sociedade que progredia – ou não – sempre rumo ao total caos, perdendo seu senso de humanismo e se vendendo por dinheiro e poder.
Antes ouvidas à torto e a direito entre as reuniões sociais, jogatinas semanais e clubes de tricô, essas histórias faziam a farra dos entediados burgueses com suas temáticas que iam do adultério ao canibalismo, mais que censuradas para as crianças.
Mas tudo que vem fácil cai na mesmice e vai fácil. Na Paris de 1600, num mundo de transição, onde o movimento feminista começava a nascer, um senhor chamado Perrault resolver expurgar o mal e reunir esses contos em versões infantis num livro narrado por uma Senhora Gansa, que cheia de moralidade difunde entre as crianças comportamentos e regras de conduta.
Irmãos Grimm, Andersen, Caroll e toda a sua sandice, arquétipos impregnados que para nossa psique funcionam como ferramenta de submissão e demonstram a fragilidade de nossas mentes, tão a mercê de tudo. Tão volúveis à marginalidade da realidade.
Essas figuras representativas se alastram pelas histórias infantis, na tentativa de produzir uma identificação nem sempre verossímil. Em manuais de domesticar crianças, a Mamãe Gansa quer desde cedo ensinar as regras que devem ser obedecidas e as condutas corretas, sob o ponto de vista de certo alguém que nunca reivindicará autoria de idéias tão brilhantes. Meras bandeirolas da civilidade e do moralismo, que, fracos como concepção, se corrompem durante o andar da carruagem.
Resguardadas por esse engodo, as crianças fantasiam a respeitam de um mundo maniqueísta, crêem na existência de um herói que irá salvar o mundo do bandido e expurgar o mal, se tornando vulneráveis e dependentes de um contexto que lhes foi apresentado o qual a realidade é incapaz de comportar.
E é na indústria cultural de massa que crianças e adultos revivem seus mundos imaginários na tentativa de assegurar que, na essência, o mundo tem algo positivo.
No fantástico mundo dos desenhos de Walt Disney vemos real aquilo que antes pertencia ao imaginário individual exposto e moldando o imaginário comum de crianças e adultos.
Alteradas e exorcizadas, essas parábolas do imaginário infantil tomam vida, e vendem estereótipos para aqueles tão sedentos por aceitação. As histórias infantis parecem ter mais efeitos sobre os adultos que os infantes aos quais são direcionadas.
Apoiadas em boas ações, altruísmo gratuito e desfechos de finais felizes, essas narrativas saciam aqueles incapazes de lidar com derrotas e fracassos e que buscam finais felizes a cada esquina, sendo moldados soldadinhos da sociedade desde a sua concepção.
No matadouro do inconsciente coletivo habitam fadas e borboletas, enquanto as bruxas e demônios são relegados ao recalcamento induzido.
Na verdade são eles que habitam na escuridão dos becos e nas lacunas não preenchidas por essa sociedade hipócrita, que caminha a olhos vendados para um futuro incerto.
Na psoríase passada:
Quando la COSA non è piu NOSTRA
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