Identidade, ruptura e encontro. |
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Publicado em: 15/04/2010 |
Parecia ser apenas mais um dia na vida de Harold Crick e seu relógio de pulso, e se perguntado, Harold teria dito que esta quarta-feira em particular era exatamente igual às anteriores. Era surpreendente como os elementos mais banais da vida de Harold se tornariam os catalisadores de uma vida inteiramente nova
. Naquela quarta-feira, foi o relógio de pulso que mudou a vida de Harold.
Até aquele dia, Harold levava sua vida sob uma rígida organização do tempo
. Metódico ao ponto da psicopatologia, Harold controlava todas as suas atividades de acordo com seu relógio de pulso
. Mas algo aconteceu naquela manhã. "Você ouviu a voz: ‘Harold apenas achava que era uma quarta-feira’?" A vida cronometrada em segundos de Harold muda por completo quando naquela manhã ele passa a ouvir uma voz feminina narrando todas as suas ações e percepções sobre o mundo
. Harold se viu, então, atormentado e exasperado... (Cale a boca!) ... amaldiçoando os céus inutilmente.
A voz da narradora traz à tona os pensamentos mais profundos de Harold; suas angústias e seus defeitos, assim como seus desejos e suas virtudes. A narradora faz também suas próprias observações sobre a vida de Harold, por vezes irônicas e cruéis. Quando o relógio de pulso pára de funcionar naquela tarde, a narradora informa que este evento colocará Harold no caminho da morte iminente. Harold procura especialistas, mas o diagnóstico não lhe agrada: a voz fala sobre ele, e não para ele. Harold estava imerso em pensamentos; todos os cálculos, todas as regras e toda a precisão da vida de Harold desapareceram.
Os eventos iniciados naquela quarta-feira assumem um caráter de intervenção sobre a vida de Harold. A inexplicável presença da voz acompanhando seus movimentos serve para Harold romper as amarras da sua vida rotineira
. O anúncio da sua morte iminente faz com que ele descubra uma outra forma de viver, menos cartesiana e mais aberta para as possibilidades do mundo. Pela primeira vez na vida, ele percebe a suspensão do tempo, conhece o amor e aprecia uma boa música. A narradora é para Harold um outro, um meio de análise e reflexão sobre sua personalidade.
Na verdade, Harold é fruto da mente de uma escritora em crise criativa, é o personagem que ela não consegue matar, ou que ela não sabe exatamente como matá-lo. Mas Harold não é apenas um personagem do seu livro, não é uma ficção ou habitante da sua imaginação; ele existe na mesma realidade que a sua. A decisão do filme de colocar personagem e escritora no mesmo plano de realidade se justifica no discurso de descoberta da voz do outro.
Para Harold, encontrar a cruel escritora que decidiu seu destino é a única de maneira que ele tem para provar que a sua vida merece ser salva, que ele aprendeu a enxergar o mundo de uma outra forma e portanto precisa continuar sua jornada. Para a escritora, encontrar Harold é perceber que a vida não é feita apenas de tragédia, que há algo belo e extraordinário na humanidade
. No momento em que se encontram, as amarras e os domínios de um sobre o outro (e de um sobre si mesmo) se desfazem, e a transformação dos personagens acontece
.
| Mais Estranho que a Ficção (Stranger Than Fiction, 2006) Direção: Marc Forster Elenco: Will Ferrell, Emma Thompson, Maggie Gyllenhaal, Queen Latifah, Tony Hale, Kristin Chenoweth, Linda Hunt, Dustin Hoffman. Duração: 113 min. Distribuição: Columbia Pictures / Sony Pictures Entertainment. |
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