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Personagens espelhados: relações de identidade e de sujeição em House.
Carolina.
Publicado em: 15/08/2009

Logo que chega o garoto, começam a lamentá-lo, compassivos, e a miséria dos genitores, e a tragédia da interdição.

Mas ele não. A despeito da ausência se surpresa (já instituída) na função de horrorizar pela contramão, o argumento brilha; qual a desvantagem em estar isento das – aceitas como – obrigações de atender ao código comum dos compromissos?

Estar despido do compromisso de atender à demanda do sujeito interlocutor, suposta ou factível, e inclusive de justificar-se diante de tal desobrigação não é, afinal, o alívio?

É assim que Gregory House, apoiado em seu tripé – bengala/identidade/discurso – enuncia-se no 4º episódio da terceira temporada da série que nomeia. Ou mais ou menos isso.

De um jeito ou de outro, o suco do 4º quadrinho não se limita à sensibilidade presente nas sutilezas – tão comum a essa temporada – nem está ressecado pela previsibilidade de uma contestação já esperada que se apresenta em toda a série como refrão de disco, porque ainda surpreende quando relativiza: apiedar-se do garoto excluído da dinâmica social comum é, afinal, um ato de altruísmo?

Ou apenas uma reafirmação camuflada de um valor estabelecido, despeitado e reafirmado à custa de qualquer verdade menos provida de dissimulação, valor esse que mantém o monopólio do bom-a-ser-continuado no círculo social do “sujeito branco, de classe média-alta”, mais ou menos como o próprio House, naquele momento, colocaria?

Embora sirva claramente à função avessa do personagem, o argumento não é ingênuo. Nem unigênito; em cena subseqüente, ao esfacelar a comoção dos pais do garoto com a demonstração de confiança que o mesmo dá ao médico por submeter-se sem resistência ao tratamento após observar House testá-lo em si mesmo com um curto “MACACO VÊ, MACACO IMITA”, House está longe de ser puramente destrutivo; há nele aqui uma virtude indiretamente semelhante à do garoto (que é o autismo) . Descascando o revestimento dourado da emotividade romântica sobre a confiança – que inclui uma fantasia sobre o direito de julgar e aprovar (ou não) outro ser humano – a verdade do confiar reside justamente nisso: ter como factível algo que lhe garante segura a sobrevivência caso aceite uma mão que se estende; no caso do paciente de House, ver o adulto arriscar-se primeiro é evidência de que o terreno ali não é letal.

O difícil aqui parece ser aceitar que daí vem a confiança, e não de qualquer outro atributo fantasista que tem seu valor atribuído pelo ego, e não qualquer instância superior e supostamente angelical que teria uma especial ser humano.

A pergunta que resta aqui, agregando-se às anteriores, é: por que entender a confiança dessa maneira seria decepcionante, afinal? Não é este comportamento nu e cru, direto e retilíneo, uma prova da capacidade da espécie de enxergar o outro, reconhecer-se nele como semelhante, de se comunicar e aproximar? E não é disso que se trata o afeto? É grosseiro? Ou só não é hipócrita ao admitir essa via de compreensão?

E o menino? Alguém perguntou a ele o que acharia disso? Ou pensou se se importaria?

Pense Nisso.


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