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Nós e as mídias: uma forma de pensar os espaços
Guilherme.
Publicado em: 15/06/2009

Uma das técnicas mais antigas e eficazes de memorização de textos consiste em aplicar palavras dispersas por um percurso espacial (físico ou mental) que registra e recria o conteúdo textual. Basicamente, a arte pode ser figurada em uma casa, com diversos quartos, salas e corredores onde você dispõe os argumentos e as referências mais úteis para cada parte do texto. O posterior percurso por estes espaços dispararia a memória dos conteúdos. A utilização da forma espacial como mecanismo de memória parece ocorrer pela facilidade do registro visual e imagético. Vistas como imagens e signos nos cômodos da casa, as palavras articuladas em discursos são mais acessíveis ao pensamento.

Este recurso parece dizer bastante sobre o funcionamento do pensamento humano, sua forma de organizar e registrar informações. A utilização dessa estrutura imagética (a casa, no nosso exemplo), se refere a um método cartesiano de separação e análise que dialoga com o nosso modo de pensar. É um modelo eficaz e instintivo de aprendizagem que aloca cada conteúdo em uma região, montando nossos acervos e bibliotecas mentais.

No contemporâneo, os recursos disponíveis pelas tecnologias dispensam a arte de memorização e modificam as estruturas de pensamento pelo emprego das mídias e da cibercultura. Sabemos que a tecnologia determina as relações socioculturais de seu tempo e permitem o surgimento de novas práticas e consumos. Com a cibercultura, nosso percurso não é mais um trajeto pelos cômodos de uma casa, é um infinito labirinto de possibilidades e combinações. Conteúdos inteiros são agenciados através de links em uma complexa rede não-linear de informações. Mas não são apenas os conteúdos, as mensagens e a informação que modificam o pensamento, como também os formatos de produção, distribuição e circulação dos produtos do comunicacional que gerenciam estas possibilidades.

Efetivamente, foi com a cultura das mídias que este terreno começou a se modificar, a partir do advento de aparelhos duplicadores de conteúdos como videocassetes e foto-copiadoras e de dispositivos portáteis de reprodução (como o antigo walkman). A multiplicação dos suportes modificou toda a comunicação de massa; a TV passou a oferecer uma variedade de canais com as assinaturas pagas, surgiram as vídeo-locadoras; jornais e revistas encontraram públicos segmentados e diferenciados. No ambiente sociocultural, a cultura das mídias permitiu a troca e o compartilhamento de produtos midiáticos. Desde então o sujeito poderia escolher os conteúdos de seu interesse, personalizando os mecanismos de comunicação.

As mídias fazem parte da nossa vida e estão presentes em todos os lugares. Vejo, no meu entorno, no meu pequeno escritório residencial, a multiplicação de mídias que não apenas me servem como fonte de conteúdos, mas que dizem muito da minha pessoa. São livros, cds, dvds, revistas que se acumulam neste ambiente. Recentemente recebi uma pessoa em casa que, ao olhar o espaço, sugeriu que eu fizesse doações do meu arquivo. O argumento para tanto era consistente, mas demorei para aceitar a sugestão. A disposição dos materiais em prateleiras e estantes me permitem rememorar seus conteúdos. E mais, ainda prefiro a leitura de livros no papel, em mãos. Mas a discussão é válida; com as tecnologias digitais os suportes físicos das mídias estão desaparecendo. Faz sentido manter uma coleção de cds quando todos os álbuns podem ser catalogados na biblioteca de um iTunes? Textos, jornais e revistas podem ser acessados na tela do computador, na velocidade de um clique. O conteúdo é basicamente o mesmo, muda a forma. Esta é a revolução digital de nossos dias: a convergência das mídias (dos suportes transitórios) para o ambiente virtual (do presente contínuo).

Ainda é cedo para diagnosticar o fim efetivo dos suportes midiáticos. Mesmo com o avanço das tecnologias digitais e o aumento na capacidade de armazenamento de dados, os suportes portáteis continuam sendo ferramentas úteis para materializar e transportar arquivos. Não é difícil encontrar pessoas com o seu pendrive pendurado no pescoço, como uma coleira, carregando seus arquivos “docs”, suas apresentações no powerpoint ou no keynote, seus vídeos ou suas fotos. Ou usando gadgets eletrônicos com aplicativos multimídia. Não há pastas, álbuns ou papéis em suas mãos. E muitos desses mantêm páginas em redes sociais com uma vasta quantidade de informações pessoais, compartilhando gostos e afetos. Logo, a memória será totalmente virtual, acessada por uma senha na web, em uma página ou servidor, que armazenará todos estes conteúdos em grandes bancos de dados.

É certo que o espaço virtual está mudando nossa forma de ver e pensar o mundo. Na cibercultura, os processos de identificação dos sujeitos com a cultura é ainda mais fragmentada e individualizada. A intermediação física se dá agora através de uma interface gráfica e virtual que exige a participação do sujeito para buscar conteúdos. Nada acontece na passividade do internauta, diferente das mídias televisivas, por exemplo. Ao mesmo tempo, o sujeito virtual – internauta – é invisível, no sentido que sua “presença” em um local da web pode não ser visível para um outro internauta que se encontra neste mesmo espaço. E mais, a navegação é dispersa e não-linear, sem entrada ou saída, sem limites ou fronteiras. A organização desse ambiente digital aproxima-se enfim à estrutura do pensamento humano, funcionando plenamente como uma extensão do homem: a bacia semântica, o palácio das memórias e os locais afetivos deslocaram-se para o ciberespaço.


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