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Publicado em: 15/03/2010 |
Aos que se horrorizam quando de seu conhecimento as peculiaridades culinárias de algumas tribos tupinambás – que após um primoroso ritual devoravam opositores capturados em combate -, o consolo: entre os tapuias – denominação tupi para as etnias diversas que não se encontravam restritas ao litoral, o canibalismo não simbolizava a subjugação do inimigo, supremacia de poder ou vingança.
Entre os tapuias tarairius, mães que sofriam aborto recolhiam novamente o fruto ao seu corpo, que deveria servir-lhe de túmulo – considerado muito mais adequado do que uma cova na terra – graças às possibilidades de deglutição da paridora. Se o nascimento fosse bem-sucedido, voltariam ao corpo da mãe apenas o cordão umbilical e a placenta – informação que fatalmente remete a imagem de uma cadela carinhosa e sua ninhada recém parida, lambendo as crias e engolindo a placenta que as envolve. Se a criança sobrevivesse ao nascimento, mas não chegasse até a idade adulta, não era sem um prefácio e um prólogo de lágrimas e lamentações rituais que a cabeça e o corpo esquartejado eram preparados na panela e servidos entre os parentes - ritual de desmembramento que deveria necessariamente acontecer na mão de um sacerdote; saudosas esposas enviuvadas deglutiriam seus maridos até os ossos, raspados minuciosamente, em uma manifestação de fidelidade e afeto
.
Se considera-se a atividade de enterrar seus mortos uma das grandes manifestações de evolução presentes no homem pré-histórico
, indicativa de uma simbolização cultural e de um reconhecimento elaborado do Outro semelhante e de relações de afeto entre humanos, não há que se questionar o valor simbólico e afetivo do ritual dos tarairius – recolher de volta ao corpo aquele que surgiu do corpo
indica possivelmente uma relação maior de observação da dinâmica da vida, e o processo ritual no qual isso acontecia identifica claramente uma relação simbólica que distancia ao infinito a hipótese de projetar sobre tais acontecimentos um conceito de não-reconhecimento do outro como semelhante ou de ausência de um fio afetivo – posto que é justamente o reconhecimento do Outro como identidade e relação afetiva que confere a ele esse destino entre os tarairius(derrubando por terra uma visão linear da antropofagia como desumanidade, instinto animal de sobrevivência ou afins).
Mesmo no rito triunfante dos tupis, que devorariam o inimigo capturado após longo e minucioso ritual (que incluía momentos de agressão de mulheres e crianças da tribo opositora, cantos e danças, oferta de uma mulher da tribo para servir os impulsos sexuais do prisioneiro e construção de uma cabana exclusiva na qual ocorreria o sacrifício), o alimentar-se do outro tem fortes elementos simbólicos em sua estruturação, diversos do desejo instintivo de alimento para sobrevivência e não reconhecimento do outro como semelhante – há que se ressaltar que os inimigos virtuosos eram preferivelmente saboreados, visto o objetivo de assumir junto com a carne boca adentro a coragem e outros atributos do ofertado
.
Na verdade, casos em que o motivador do canibalismo pode ser identificado na soma entre instinto de sobrevivência e ausência de recursos opcionais são facilmente identificáveis no coração das civilizações – grafocêntricas e excluídas dos grupos geralmente conceituados como bárbaros – como quando o iate inglês Mignonette naufragou – 1884 – e três dos quatro homens que lutavam pela vida optaram por assassinar o quarto semelhante, que encontrava-se já adoentado pela desidratação, após cinco dias sem alimento ou água potável (condenados pelo júri por assassinato, após o resgate, argumentaram a favor de sua libertação, apelando para a situação limítrofe em que se encontravam, foram ouvidos pelo juiz que intercedeu junto à Rainha Vitória e voltaram à liberdade após seis meses de prisão)
. Rezam registros que, muito antes disso, no século XIII, mercados públicos do Cairo tinham corpos de crianças à disposição para o comércio, que oferecia opções para o grande período de estiagem da época.
Nem incapacidade de reconhecer o semelhante, nem desumanidade, nem fúria; os dois últimos casos apontam para a tensão real entre a sobrevivência e a moral humana
.
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