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Pele que Habito
Manipulações, artifícios e recomposições do eixo perceptivo.
Guilherme.
Publicado em: 15/01/2012

Almodóvar tem toda uma filmografia sobre o tema do corpo – de usos, percepções e mudanças, e em sentido mais interior de como a relação e confusão sexual trabalham a questão de identidade e personalidade . A abordagem do diretor, quase sempre um exorcismo particular dos traumas sociais (que lhe rende tanto polêmica quanto louvor), inclui análises dos processos de constituição do sujeito, das referências familiares e dos eventos transformadores de uma vida. Esse conjunto de elementos nas obras de Almodóvar tem um efeito questionador sobre os diferentes processos de identidade, de relação com o corpo e com a sexualidade, e como a sociedade está travestida e transfigurada na contemporaneidade.

Em A Pele que Habito, Almodóvar conta a história pela perspectiva de um cirurgião plástico (Antonio Banderas) que, obcecado pela morte da esposa, decide criar um experimento de sintetizar uma pele mais resistente (ao fogo, especialmente). A fabricação desse tecido, cuidadosamente manipulado em laboratório, esconde os próprios segredos do cirurgião e de seu objetivo em encobrir uma outra fachada. A pele é costurada aos poucos, de pedaço em pedaço, possibilitando à sua paciente a ter uma nova cara e um novo corpo por completo . O que se revela sobre o aprisionamento da paciente, e sua história pregressa, sublinha que aquela pele é mesmo um artifício falso, uma moldura feita pelos desejos do próprio médico mas que não correspondem à percepção interior de Vera (Elena Anaya). A narrativa da vida de Robert revela, contudo, como transcorreu seu processo de substituição, transferência e recomposição; aonde há uma motivação de vingança e inconformidade, há também distúrbios da ordem do desejo e também da representação daquela figura familiar.

Os processos que se revelam artificiais no filme, moldados e construídos em recomposições psicológicas ou próteses sintéticas do corpo, identificam aquilo que se estabelece como o paradoxo do contemporâneo – de que o mundo está todo ele manipulado, por que não seria um corpo modificado o modelo mais coerente ao ambiente proposto? A maneira como Almodóvar constrói, imageticamente, plasticamente, o cenário de artifícios e manipulações é sedutora e habilidosa como as mãos do cirurgião; feitos de planos fílmicos precisos, os blocos de construção que tem a disposição, tal como os pedaços de pele que escondem o horror.


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