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As femme fatales e a posse do desejo.
Carolina.
Publicado em: 15/01/2010

Ela era gananciosa, manipuladora, debochada, interesseira, arrogante, mentirosa . E isso foi essencial para que o público masculino se apaixonasse.

Ajudada pela maquiagem, pelo cuidadoso jogo de luz e sombra e pela musicalidade da voz alheia, a femme fatale, que entrou com Mae West pisando firme no cinema dos anos 30 e povoou os roteiros dos anos 40, escancarava algo há muito reprimido no mundo real: a sensualidade feminina .

É claro que ela era perigosa. Lobo em pele de cordeiro, ela cativava, seduzia, provocava - com segundas e, muitas vezes, terceiras intenções - e partia corações. Aproveitando-se do seu sex appeal ela queria conseguir dinheiro, poder, liberdade e status. Talvez esse caráter duvidoso que lhe era conferido fosse a personificação do medo masculino frente ao que é misterioso, ao que causa fascínio, ao que tem vida própria e não pode, portanto, ser controlado. Mas era também a personificação do desejo.

Devido às limitações da época, a femme fatale mais insinuava e sugeria do que realmente mostrava (era o jeito de driblar a possível censura) . Mas isso acabou acrescentando-lhe o mistério, e mais realçava do que encobria a sensualidade. Não foi à toa que Rita Hayworth foi uma das mais populares pin-ups da Segunda Guerra Mundial. A femme fatale deu personalidade feminina ao sexo. O homem deixa de ser o portador absoluto do desejo. Além de dividir essa "posse" com as mulheres, passa a ser o objeto que reagiria com desejo motivado por um estímulo consciente de outro ser: a mulher erótica, sexual, provocante, que tinha consciência de sua beleza e que deixava que sua sexualidade exalasse. É claro que o contexto realçava a personagem: o filme noir, por exemplo, que está repleto dessas deusas perigosas, é por si só um cenário de ambição, sensualidade, sombras e mistério, no qual a femme fatale não é o único elemento que contraria a moral vigente. Há corrupção, decadência e mentira em cada aspecto do cinema noir, que já foi dito "paranóico, condenado, claustrofóbico, sem esperança e sensual" - a femme fatale seria, então, a mulher que faz parte de uma realidade que antigamente seria dita "só para homens". É a mulher que complementa o sexo, e não mais se submete a ele. Complementa com beicinhos, cabelos jogados de lá para cá, olhos baixos, sobrancelhas arqueadas, nariz empinado, costas nuas, vozes roucas, cigarros, vestidos decotados e, por incrível que pareça, fragilidade e romantismo. A femme fatale fala de amor. Mas näo define amor como casamento, fidelidade e obediência. O amor da femme fatale é quente, sexual, arrebatador, selvagem e apaixonado. É um amor que precisa ser conquistado. A música que, dublada por Rita Hayworth em "Uma Viúva em Trinidad" diz "you can tell by my kiss you were the first and won't be the last" e "many loves have I/you are just one more" é a mesma que conclui "but someday I'll be kissed and maybe I'll doubt that I've been kissed before".

Essa possibilidade de entrega absoluta revela a fragilidade que complementa a personalidade da femme fatale: é a primeira vez que a intimidade feminina aparece nua e em primeira pessoa.

E essa mistura de agressividade e doçura, perigo e vulnerabilidade, "nudez" e mistério, possibilidade e negação da concretização do desejo que faz com que Katharine Hepburn, Bette Davis, Marilyn Monroe, Rita Hayworth, Audrey Hepburn arranquem suspiros dos homens nos filmes e na platéia. Ao mesmo tempo que sua coragem ao "despirem-se" é intimidadora, sua "nudez" as torna frágeis.

Essa dualidade é reforçada pela tendência da femme fatale a sofrer uma punição durante ou ao final do filme. O que em primeiro momento parece ser uma lição de triunfo da moral vigente sobre os "transgressores" da época não é nada além de mais uma deixa para que a femme fatale realce seu poder ou sua fragilidade. Cary Grant, depois de algemar Mae West em "Uma Loira para Três" diz "Pronto. Os homens agora podem sentir-se mais seguros" apenas para que ela possa responder: "Não sei. As mãos não são tudo". Em "O Falcäo Maltês", o detetive Sam Spade (Humphrey Bogart) não deixa de entregar a femme interpretada por Mary Astor à policia. O que não impede que ele saia com o coração partido .

Separar a femme fatale do galã de alguma maneira trágica, como a morte ou cadeia, não serve realmente para puní-la, mas para eternizar seu mistério. De qualquer maneira, a receita é sempre a mesma: ao mesmo tempo que a possibilidade de entrega é perene, ela é eternamente intocável.

Ela era o máximo.

Gilda

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