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De politeísmo e megalomania
Carolina.
Publicado em: 15/12/2009

"Legião, porque somos muitos".

Eis porque o estrago feito em um corpo único era tão grande: a possessão não era por um ser maldito, mas vários, e assim se conta essa história. Uma guerra de egos em um só corpo não podia mesmo ser menos destrutiva. Na verdade, nem inaudita. É assim que se inicia o desmembramento do Grande Coletivo: o levantamento de um ego individual e ativo. E de outro. E de outro. E de outro...

Então todos observaram e conjuntamente concordaram em crer que a morte e o renascimento eram cíclicos, ambos vitais, um pelo outro eternamente precedido e induzido – é verdade, não apenas na Grécia ou na Mesopotâmia, mas também no dito Egito Antigo. Assim sendo sempre o humano, a tal da humanidade necessitava sentir-se no controle , ou no endosso, que seja, do processo, de alguma maneira, para apaziguar a insegurança diante da expectativa se dessa vez, depois da noite, antes do dia, o sol vinha ou não vinha, as plantas renasciam, a civilização vivificava, a população crescia. Por isso, tocava a evidenciar sua concordância diante do grande morte-e-vida; o Faraó, portanto, era sempre o mesmo: ele mesmo, ser divino, morria e logo ressurgia no Faraó assim intitulado no momento seguinte. Para garantir que a vida fosse boa, que a vida fosse certa, que a vida ressurgisse, era preciso assegurar a morte que lhe precedia e catalizava; Faraó por Faraó, em dado momento, assim acontecia. E era acolhida de bom grado a condição do sacrifício; afinal, como líder de uma grande população – como deveria ser - o faraó era apenas isso: o representante temporal de um único Faraó-Deus, provedor e mantenedor de toda vida,eterno, uníssono. Como representante de todos em um, ele deveria manter subjugado ao Todo o seu parco indivíduo – que com a morte era parte regenerativa, e não excluído. Não havia medo nisso; não havia ego individual nisso . Ou, como diria Thomas Mann, colocando sua poética a serviço da História, havia um ego "aberto atrás", que pelo Deus-Bem-Maior-do-Coletivo, deveria pelo Faraó atemporal ser possuído, e perecer por este, a seu serviço...Sendo todos um, não havia, no aniquilamento individual, um real prejuízo que pudesse ser sentido, mesmo pela psique do cordeiro da vez no sacrifício.

Mas tempo é dinheiro, diria um visionário posterior, e dinheiro é propriedade privada, capital, individual e intransferível. E com o tempo e o poder de que se conscientizou, um belo dia um faraó passante não se convencia mais com essa história de uníssono. Nem queria deixar o trono que aguçara seus sentidos e sensações de indivíduo . Daí passa-se da efetivação para a representação do sacrifício; costura-se a roupa do Rei que não está nu de seu desejo não-coletivo, tampa-se atrás, por onde assumiria a roupagem humana o Faraó cíclico, todo e qualquer orifício; representemos, em ritual e simbolismo. Morrer não é mais preciso. Não para o faraó. Que o façam suas mulheres, ou familiares, ou reinos, quando da morte natural do Preciosíssimo, para acompanhá-lo no além túmulo, no momento que a natureza fizesse propício. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Então chegamos à liberdade, ao direito individual - inflado à revelia do vizinho, às maravilhas do capitalismo. E temos expressões particulares do desejo retrocedendo a um objeto o Outro conviva. E servo individual de desejo o interesse em um cargo político, que nada mais tem de representativo . E tudo isso.

Seriam os deuses egípcios mais precisos?


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