Vencedor de Cannes 2009 é uma aula de construção de personagem. |
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Publicado em: 01/06/2010 |
A realização cinematográfica, por uma questão logística, é caracterizada pela descontinuidade. A ordem de gravação não necessariamente segue a ordem do roteiro e, dependendo das condições de filmagem, a produção pode ser um constante vai-e-vem entre os diferentes tempos da diegese, seguindo locações ou horários da equipe e do elenco. São inúmeras variáveis que podem modificar o cronograma de filmagem. É no processo de montagem que a narrativa do filme é então reestruturada conforme o roteiro e a história que se quer contar.
A reflexão sobre a realização cinematográfica ocorre sobre este O Profeta devido à complexidade de interpretação do papel protagonista dessa história. A jornada do personagem principal é feita das duras experiências do seu período na prisão e o ator consegue imprimir em detalhes cada transformação do personagem. É um trabalho monstruoso de interpretação; enquanto a história apresenta as ações que formam a personalidade criminosa do personagem, a presença desse em cena nos faz questionar seu passado antes da prisão, sua posição social e a hierarquia racial na França contemporânea. Posto de outra forma, a narrativa do filme - daquilo que é enunciável - segue os trabalhos do personagem e a construção do seu império ilegal de dinheiro e drogas. Paralelamente, uma outra rede de significados pode ser tensionada pelo tratamento de interpretação do personagem, nas emoções expressas ou contidas, nas justificativas honestas ou desleais de suas ações. Fica difícil imaginar como essa incrível construção de personagem pode ter sido alcançada com um cronograma de filmagem que não coincidia com a evolução do roteiro. Talvez o personagem, tão cheio de camadas, tenha sido determinante nas decisões de produção. O resultado que fica, em todo caso, é uma aula de construção de personagem.
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O Profeta |
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