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Relações na Lavoura: um êxtase em folhas
Guilherme.
Publicado em: 15/10/2009

Lavoura Arcaica narra em primeira pessoa a história de André, que se rebela contra as tradições agrárias e patriarcais impostas por seu pai e foge para a cidade , onde espera encontrar uma vida diferente da que vivia na fazenda de sua família. Quando é encontrado em uma pensão suja em um vilarejo por seu irmão Pedro, passa a contar-lhe, de forma amarga, as razões de sua fuga e do conflito contra os valores paternos.

Sem ordem cronológica, André faz uma jornada sensível a sua infância, contrapondo os carinhos maternos e os ensinamentos quase punitivos do pai. Este valoriza acima de tudo o tempo, a paciência, a família, a terra e a religião. Mas André não aceita esses valores. Ele tem pressa, quer ser o profeta de sua própria história e viver com intensidade incompatível com a lentidão do crescimento das plantas. Nesse trajeto, a paixão incestuosa por sua irmã Ana , e sua rejeição, exercem papel fundamental na decisão de fugir da casa da família. A mãe desesperada manda o primogênito Pedro buscá-lo para tentar reconstruir a paz familiar. Trazido de volta para a fazenda, André é recebido por seu pai em uma longa conversa e uma festa que, ao invés de resolverem o conflito, evidenciam a distância intransponível entre as gerações. Por essa razão, a história é muitas vezes descrita como uma versão invertida da parábola do filho pródigo.

Off: "Na modorra das tardes vadias da fazenda, era num sítio, lá no bosque, que eu escapava aos olhos apreensivos da família. Amainava a febre dos meus pés na terra úmida, cobria meu corpo de folhas e, deitado à sombra, eu dormia na postura quieta de uma planta enferma, vergada ao peso de um botão vermelho. Não eram duendes aqueles troncos todos ao meu redor velando em silêncio e cheios de paciência o meu sono adolescente? Que urnas tão antigas eram essas liberando as vozes protetoras que me chamavam da varanda?".


Criado em uma família religiosa e opressora, André sofre para entender seus desejos e impulsos sexuais. Suas idas ao bosque representam o despertar da libido, representado através do encontro sensorial do seu corpo com a natureza, pelo contato das folhas, secas e velhas, com a sua pele. Nota-se que neste primeiro momento o menino André esfrega seus pés contra a terra, sistematicamente de cima para baixo, sem roçar um contra o outro, mas fazendo fricção com as folhas do chão. Passado o instante de excitação, o menino se cobre de folhas secas, escondendo-se na terra, enquanto sua mãe o chama da varanda.

Off: "De que adiantavam aqueles gritos se mensageiros mais velozes mais ativos montavam melhor o vento, corrompendo os fios da atmosfera? Meu sono, quando maduro, seria colhido com a volúpia religiosa com que se colhe um pomo. E me lembrei que a gente sempre ouvia nos sermões do pai que os olhos são a candeia do corpo. E, se eles eram bons, é porque o corpo tinha luz. E se os olhos não eram limpos é que eles revelavam um corpo tenebroso".


André está tomando pelo instante e a câmera acompanha sua vista para o céu; é como vemos, em um jogo de luz e sombras, o entrelaçamento de galhos e folhas em uma figuração quase abstrata. As folhas são pouco mais que sombras desfiguradas que tapam os raios solares – criando uma máscara por folhas na imagem. Um quadro particularmente interessante, como uma imagem-síntese da obra, que propõe uma reflexão sobre as diversas ramificações da história, de diferentes nuances e tonalidades. Toda a cena relatada aqui em fotogramas toca a sensibilidade dos sentidos, na sensação dos pés esfregando na terra, no passar das mãos sobre as pernas e na cobertura de folhas sobre a pele. O último plano está focado no olhar de André, obstruído por um tronco de árvore em primeiro plano, que recorta metade de seu rosto, como um índice da passagem do tempo - aquele que foi para aquele que virá.

Quando do retorno de André – adulto – ao local do bosque, em uma cena de comemoração e festa familiar, o rapaz assiste a uma apresentação de dança da sua irmã Ana. Emoldurado entre plantas e folhas, André retira os sapatos e esfrega seus pés, um contra o outro e entre a terra úmida e as folhas secas. A ação de seus pés desnudos pode indicar o desejo – a vontade e a repressão – e em último grau, o ato sexual em si . As duas cenas se conectam em um processo de analogia retroativa pelo conflito de André com os valores familiares e religiosos, motivação que rege toda a trama.

Off: "E eu, nessa postura aparentemente descontraída, ficava imaginando de longe a pele fresca do seu rosto, cheirando a alfazema, a boca um doce gomo, cheia de meiguice, mistério e veneno nos olhos de tâmara. E minha vontade incontida era de cavar o chão com as próprias unhas e nessa cova me deitar à superfície e me cobrir inteiro de terra úmida".


Lavoura Arcaica (2001)
Direção: Luiz Fernando Carvalho
Elenco: Selton Mello, Raul Cortez, Juliana Carneiro da Cunha, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros.
Direção de fotografia: Walter Carvalho.
Roteiro: baseado no romance homônimo de Raduan Nassar (1975).


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