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Publicado em: 15/08/2010 |
Qual é o sentido de se ler a crítica cinematográfica
? A questão chega ao espectador no momento de escolher um filme para assistir nos cinemas: a obra foi recomendada, quantas “estrelas” o filme recebeu pelo seu guia/veículo de confiança? Devido à quantidade de lançamentos cinematográficos a cada semana, a crítica especializada pode ser um bom indicativo na hora de decidir pela compra de ingresso. Mas será que o exercício da crítica corresponde aos gostos do público?
Possivelmente, todo espectador já teve a experiência de não gostar de um filme legitimado pela cultura de massa. Às vezes, é difícil entender quais são as qualidades que os outros encontram na obra
. Outras vezes, o filme simplesmente não corresponde com suas preferências pessoais. De uma forma ou de outra, a crítica cinematográfica pode estabelecer uma relação de expectativa e frustração frente às demandas pessoais do espectador.
Por esse motivo, o texto crítico deve considerar os diferentes gostos de público e evitar sempre que possível o julgamento imediato de valor: será mais produtivo se a análise fílmica despertar outras sensibilidades ao leitor/espectador
. A indústria cultural, aliás, se vale dos mecanismos de segmentação dos gostos para multiplicar seus produtos; por extensão, o crítico precisa compreender as sensibilizações adjacentes à sua. Não se quer postular, entretanto, a neutralidade subjetiva ou opinativa da prática crítica, mas antes considerar sua relevância para o cotidiano. Ora, qual é a credibilidade de um veículo se suas formulações críticas não se comunicam com o público?
Existe, nos Estados Unidos, um crítico de cinema conhecido por ir na contramão dos seus pares
. A política “do contra” faz a sua fama entre os colegas: enquanto uma obra cinematográfica é recebida com louvor pelo principais veículos da crítica especializada, seu texto certamente endereçará duras observações ao filme. Da mesma forma, esse crítico poderá tecer comentários positivos sobre “aquela bobagem” que os demais escritores e o público em geral preferiram ignorar. Entre as polêmicas recentes de Armond White constam: a acusação de que Toy Story 3 só celebra o consumismo; ou ainda a percepção de que Jonah Hex é um exame apurado do maniqueísmo entre o bem e o mal no contemporâneo. Nesse sentido, White pode ser visto como a exceção que confirma a regra
.
Por outro lado, porém, a apreciação de gosto duvidoso de White revela como o julgamento de valor é problemático; não apenas o texto crítico agencia um repertório sensível, subjetivo e pessoal, como também dificilmente será confirmado pelas demais individualidades. Portanto, cabe ao sujeito analista defender seu ponto de vista com recursos argumentativos que possam convencer uma maioria de leitores sobre a sua apreciação fílmica; mesmo que essa apreciação não esteja de acordo com o julgamento corrente.
O que significa dizer que o texto crítico sobre uma obra artística pode ser relevante se assumir uma de duas funções: a primeira, de informar seus leitores sobre as possibilidades de identificação com a obra analisada da maneira mais abrangente possível (qual é o público-alvo do filme, como o tema é abordado, por exemplo); a segunda, de ser um ensaio referencial sobre a experiência artística, que proporcione uma leitura diferenciada sobre a obra. Afinal, uma das funções da crítica cinematográfica é mediar a relação entre público e obra, levando em consideração as diferentes sensibilidades e representações identitárias
.
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