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Rio
O gostar de Rio chega por via de uma série de concessões.
Guilherme.
Publicado em: 07/04/2011

São tantos os fatores que computam a favor de Rio que não há razão em justificar a sua ida aos cinemas: pelas mãos de um brasileiro, que fez sucesso no exterior, chega uma animação que tem o Rio de Janeiro como cenário da aventura. Se Carlos Saldanha já bateu recordes de bilheteria no Brasil com A Era do Gelo 3, imagine o que pode acontecer com este seu novo filme - que diz pessoalmente a todo e cada brasileiro de coração. Muitos podem ficar curiosos em conferir a tradução da cidade maravilhosa para os moldes da animação tri-dimensional, para reconhecer as paisagens e os monumentos de cartões postais que identificam o Rio de Janeiro tanto no Brasil quanto no exterior. Outros podem se maravilhar com o nível de detalhamento e de encanto da tecnologia. Há quem prefira apenas uma hora e meia de diversão sem compromisso. E há quem duvide que o espírito carioca possa ser transmitido, de forma fidedigna, através de uma modelagem computadorizada.

A boa notícia: Rio é lindo de encher os olhos. O colorido da animação é um deslumbre e pode ser especialmente atraente para os menores de idade; ao mesmo tempo pode ser também um tratamento carinhoso para a alegria e a emoção do país - e em algum momento entre os planos gerais da cidade, a animação consegue mesmo passar a sensação de uma identidade carioca. Do que podemos analisar além do verniz e das belas tintas, porém, o resultado não é mais do que uma história simples e previsível entrecortada por sequências de perseguição, tombos e trapalhadas inspiradas nos clássicos de Chuck Jones.

Nesse sentido, o gostar de Rio chega por via de uma série de concessões. Logo na abertura, uma sequência musical mostra como o pequeno Blu é raptado de seu habitat natural (a floresta) para ser negociado no exterior desenvolvido - embalado no samba, o trecho usa plumas e penugens para caracterizar o tom carnavalístico, de um exótico quase vergonhoso e de mau gosto. Mas entende-se que uma obra comercial precisa trabalhar com alguns conceitos clichês para sobreviver nos demais mercados. Em outro momento, é a marca da violência e da malandragem - de um grupo de macacos! - que incomoda; mas será que o retrato não é justo apesar de todas as implicações pejorativas? De repente, a animação não exagera nem mascara demais os traços conhecidos da cidade e faz uma homenagem na devida medida. Despe-se, portanto, o protecionismo sócio-cultural na impossibilidade de uma abordagem imparcial do que está representado na tela - apesar do temor de que o olhar estrangeiro possa ser assimilado pelo local sem a necessária reflexão crítica.

Outras concessões são feitas em nome do gênero da animação, e estas sim parecem comprometer mais o resultado da obra: na presença de números musicais (daqueles em que os personagens irrompem a cantar no meio da cena ou simplesmente aquelas sequências com canções incidentais), o flime confirma que seu público-alvo está abaixo dos 12 anos. E isto é inegável: sabemos desde cedo qual será o final da história - não há surpresa nenhuma aqui e a previsibilidade do conto pode ser um problema até entre os pré-adolescentes. Os personagens também carecem de um melhor desenvolvimento de personalidades; não à toa, a cidade é o elemento que mais produz identificações. A animação não é, nem quer ser, ousada como Rango, 'esperta' como Megamente, autoral como O Fantástico Sr. Raposo, nem sensível como Wall-E. Rio não almeja voos mais altos; o objetivo aqui são as risadas das cenas de correria, da comédia slapstick e do humor inofensivo - enfim, do produto família desenhado para arrasar nas bilheterias. Sua fórmula é não se arriscar e para isso mantém a história no seu nível mais elementar. É verdade que a animação poderia ser mais insana, como eram os desenhos de Pernalonga, Papa-Léguas e cia.; mas considerando apenas ao que se propõe e ao que ela se permite, o resultado não poderia ser diferente - ao final da sessão, as crianças estavam extasiadas com o Rio da arara Blu.

Rio 
(EUA, 2011)
Direção: Carlos Saldanha.
Com as vozes de: Jesse Eisenberg, Anne Hathaway, Leslie Mann, Rodrigo Santoro, Jamie Foxx, Will i Am, Jane Lynch, Wanda Sykes, Tracy Morgan, Judah Friedlander, George Lopez e Jemaine Clement.
Duração: 96 min.

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