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Publicado em: 15/11/2009 |
No começo, não era uma rosa. Era um buraco azul. Uma ausência desconcertante. Não era pano que pudesse esconder algo ou papel que pudesse contar histórias. Não era nem mesmo uma pedra. Era um não-ser indisfarçável.
E foi o vazio absoluto que com o seu poder de não existir, fez crescer tudo ao seu redor. Foi o inexorável não central, e nada mais a causa de templos e monumentos, céu e inferno, tempestades e árvores verdejantes. E era o não que fazia o vento que balançava as folhas. E era o não que motivava as florestas, as estrelas que não cessavam de nascer, a eterna insistência do sol e da lua. O não foi a mãe de todos os poetas, de todos os sonhos de felicidade. Do desejo pelas roupas e pela nudez, da sede da união e separação, da vida e da morte.
Mas o que havia não era um buraco no centro de um jardim, mas um jardim ao redor do buraco. Era o não que, com sua mágica hedionda, fazia com que houvesse luz, e vida, e chuva, e dor. E sua presença era tão indisfarçável que todo o Jardim descobriu que por trás de um universo interminável e expansivo, existia simplesmente um não.
Era o não e nada mais.
E então, por causa da inegável presença, surgiu a vergonha. A vergonha da indiscrição daquele não, que não se submetia à beleza ou à dor.
A conclusão de que o tamanho do Jardim não importava mais era inevitável. A profundidade daquele não era infinitamente mais poderosa do que tudo à sua volta. Por dentro do mundo, nas entranhas do universo, por trás do infinito que girava ao seu redor, reinava o não absoluto. O não-existir, o não-ser, o não preencher. Nada havia que pudesse ocupar aquele espaço, exceto o indefectível não . Ali, nada podia ser plantado ou construído. O não não era vida. Era imaterial. Todas as grandes paixões vinham dele e para ele voltavam. Mas o não não podia ser preenchido.
E então veio o medo. Era imperativo proteger aquele não gerador de todas as coisas. Cedo ou tarde, a inquietude que aquele vazio provocava voltaria o universo contra ele. E se não fosse destruído, todo o infinito ao seu redor pereceria com ele.
O Jardineiro escolheu então a rosa mais bonita do seu jardim e entregou-a ao não. Aquela, e nenhuma outra era a perfeita redoma. Ela tocaria tão profundamente o coração de quem a olhasse que não haveria no mundo determinação capaz de desferir-lhe um golpe.
Mas o Jardineiro sabia que aquele espaço vazio seria incapaz de sustentar vida alguma colocada em seu centro. Era preciso que a rosa que ali pairasse pudesse sugar de outra fonte o seu mel.
O Jardineiro, sem encontrar alternativa, com suas mãos sujas de terra tirou da rosa um espinho, e plantou-o em seu próprio peito. Do peito para o espinho, do espinho para a rosa, e nada faltaria a ninguém. Mas a rosa começou a ficar azul. E o que acontecia à rosa passou a acontecer ao coração do Jardineiro, que também ficou azul. Logo, o Jardineiro estava todo azul, e o espinho começou a inflamar o seu peito. O Jardineiro suportava a dor silenciosamente e continuava a sujar as mãos na terra cuidando do seu Jardim. E quanto mais o espinho lhe doía e mais difícil era cuidar do jardim por causa da dor, mais apegado a ele ficava o Jardineiro, que ficava cada vez mais azul com o passar do tempo.
E então veio o vento, que tinha estado com o medo e trazia dele uma mensagem, que sussurrou ao ouvido do Jardineiro. "Não dorme mais", dizia. Todos os dias o vento vinha, e o Jardineiro lembrava-se da ordem, e não mais dormia.
Um dia o vento trouxe consigo um par de óculos. "Não tira mais", dizia.
O Jardineiro colocou os óculos, e com eles não apenas a rosa parecia azul, mas todo o jardim ao seu redor. O Jardineiro não dormia, não tirava os óculos e cuidava incessantemente do seu jardim azul. Agora, as horas passavam-se azuis, os dias passavam-se azuis, as noites, as semanas, os meses e os anos, fosse verão ou inverno, primavera ou outono, passavam-se azuis.
E tudo que continuava a nascer e crescer no Jardim, aos olhos do Jardineiro, já nascia azul. E o tempo, que cada vez mais pesava os ombros do Jardineiro, já não era mais tempo, mas um interminável azul.
Um dia, o vento não veio. E o azul já pesava tanto nas costas do Jardineiro, e há tanto tempo, que ele deitou-se no chão cedendo ao peso. E como o vento não estivesse ali para lembrar-lhe sua prece, sempre sagrada e sempre azul, o Jardineiro adormeceu.
Deitou-se, adormeceu e teve um sonho.
Em seu sonho, ele caminhava pelo Jardim com um saco nas costas. Caminhou preocupado, pois tinha uma ordem para obedecer. Ele devia encontrar, no meio do jardim, aquilo que não lhe servia mais, e colocar dentro do saco para que desaparecesse. O Jardineiro sonhou dias, meses, anos sem parar. No sonho, ele continuava com a mensagem da ordem que precisava cumprir, mas andava, andava, andava e não encontrava nada que pudesse ser colocado dentro do saco. O que ele não sabia era que estava dando voltas ao redor do jardim incessantemente; que estava andando em círculos.
E passou anos imóvel, adormecido em profundo azul, sonhando que andava sem nunca encontrar o que buscava. O Jardim cresceu e tornou-se selvagem; era agora uma floresta. A dor em seu peito tornou-se tão intensa que passou a incomodá-lo em seu sonho, mesmo estando ele profundamente adormecido. Um dia, a dor tornou-se insuportável e, sem perceber, o Jardineiro, ainda adormecido, virou o corpo, ansiando por uma posição que pudesse aliviar a dor. Enquanto ele se virava, seus óculos azuis caíram e, sem perceber, o Jardineiro deitou-se por cima deles, que ficaram em pedaços. Nesse momento algo aconteceu em seu sonho.
Toda a floresta, que era tingida por um azul uniforme, tornou-se violentamente colorida, e os olhos do Jardineiro ardiam ao contemplá-la. Atordoado, ele olhou ao redor e viu algo que chamou sua atenção. Lá longe, bem no meio da floresta, um pontinho azul brilhava, pequeno como uma pérola. Tomado de esperança, e sentindo saudades inexatas e medos confusos, o Jardineiro esqueceu os círculos e passou a andar em linha reta, na direção da luz azul.
O Jardim, que era agora uma densa floresta, oferecia resistência aos passos do Jardineiro, que além da ferida no peito colecionava progressivos cortes e arranhões no rosto, nos pés e nas mãos. Quanto mais rápido o Jardineiro andava, mais machucados fazia, maior eram o cansaço e a ansiedade de chegar ao centro do Jardim. Mas dessa vez ele não se perdeu no caminho, embora as árvores segurassem suas mangas no caminho enquanto o medo dizia: "Volta!"
Em determinado momento, vencido pela exaustão, o Jardineiro sentou-se, encolheu as pernas, escondeu a cabeça entre as mãos e chorou. As lágrimas caíam em profusão, sujando a camisa e formando aos seus pés uma imensa poça colorida. As lágrimas iam se juntando e formando pequenas letras, que formavam pequenas palavras que começaram a formar uma pequena história. Enquanto as gotas iam caindo, a pequena história ia se contando e o Jardineiro, que não parava de chorar, ia ouvindo: "No começo, não era uma rosa. Era um buraco azul..." E, embora não soubesse por quê, o Jardineiro sentia um imenso desconsolo ao ir ouvindo a história, e por isso chorava ainda mais.
Quando finalmente levantou os olhos, descobriu que estava diante da luz azul. Sentiu-se perdidamente desapontado. No momento em que olhou para a luz, lembrou-se do que esperava que fosse encontrar, e não viu.
Em seu sonho o Jardineiro não via rosa alguma, bonita ou feia que fosse. Havia ali apenas um buraco azul. O fundo do buraco era insondável. Ele parecia feito de misteriosos gases, que se enrolavam formando desenhos inconstantes e indecifráveis impregnados de um misterioso azul. Ele não trazia em si explicação nenhuma. Apenas não era. E no entanto existia.
Intimidado pela obscuridade daquele denso não, tão perpétuo, tão obtuso, tão invencível, o Jardineiro não desejou tocá-lo. Começou a ver nele monstros indescritíveis, dores e castigos, tempestades e vulcões. Mas ele sabia que nada disso estava ali. Apenas um silencioso e inflexível buraco.
Caiu nas mãos do Jardineiro uma pequena folha azul. Intrigado, ele olhou ao redor para descobrir de onde viera a folha, mas não encontrou pista alguma. A folha então contou-lhe um segredo. Levado pela impressão que aquilo lhe causara, o Jardineiro pensou que não havia sentido em Ter um buraco no meio de um jardim. Fechou os olhos, pegou o buraco e colocou-o no saco que carregava nas costas. Imediatamente, o buraco desapareceu. E neste exato momento todo o jardim, a lua, as estrelas, os campos, o sol desapareceram também.
O Jardineiro, empapado do suor que o medo trouxera em sua primeira visita, acordou sobressaltado. Abriu sua mão direita que tinha estado fortemente contraída enquanto sonhava, e encontrou nela uma pequena folha seca. Com o coração aos pulos, levantou-se e olhou à sua volta. As plantas do seu jardim estavam todas murchas. A terra estava seca e ruim. Não havia sol. O mundo estava morrendo.
O Jardineiro procurou seus óculos azuis a fim de melhorar a visão, mas eles estavam quebrados. Com o suor escorrendo por seus braços trêmulos, percebeu que todas as estrelas do seu Jardim estavam caídas no chão. E já não pareciam estrelas. Eram pedrinhas cinza das quais o papel alumínio se desprendia como casca de árvore. Tudo e nada desapareciam juntos. Desesperado com o golpe que havia desferido com as próprias mãos, o Jardineiro caiu em prantos. Dessa vez, seu choro era como chuva silenciosa e clara. E tanto chorou o Jardineiro que as lágrimas foram varrendo para o nada a terra, as plantas murchas, as estrelas de pedra, como a chuva varre as calçadas vazias.
Então o Jardineiro olhou para baixo e viu que, por trás de tudo, além do infinito e além do não, havia um peito. Um peito como teria sido o seu se um dia não houvesse existido nele o espinho da flor azul do nada. O Jardineiro percebeu assombrado que, embora ainda sentisse dor, o espinho em seu peito, junto com todo o resto, havia sumido. Tornou a olhar para o peito que havia visto diante de si e deparou-se com um enorme espelho.
Autoria: Carolina Motta.
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