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Publicado em: 15/08/2009 |
Em um dia qualquer de um ano específico - 1949 – o ator Sam Wanamaker rompeu caminho pelo ar londrino em busca de Shakespeare e deu com a cara na parede; endossando a existência do teatro em que foi encenada a dramaturgia de Sir William havia uma placa. E só.
Se tivesse percorrido o mesmo caminho nos idos 1599, teria encontrado alguma coisa a mais: um prefeito avesso à arte dionisíaca que atraía multidões, distraía os trabalhadores de suas tarefas e entretinha a rainha; uma cidade efervescente, que crescia para além da ponte que marcava suas imediações de “vida apropriada”, construída em pedra e decorada com a cabeça dos “traidores” nos portões de entrada e saída (em uma época em que as execuções públicas eram assistidas como um espetáculo); passantes freqüentadores da taberna nas imediações, consumidores dos produtos oferecidos em pequenos estabelecimentos ao longo do caminho, e que tinham como única outra opção de entretenimento profissional diversa das peças teatrais as refeições de ursos e afins, alimentados com animais vivos para deleite do público. E, coroando o final do caminho, empinando-se às margens do Rio Tamisa, em Southwark, o Mundo.
E Sam Wanamaker sabia disso muito bem.
Originalmente construído com os restos do teatro em que a companhia da qual Shakespeare fazia parte atuara – e que existira do lado norte da cidade, o The Globe consumiu-se em chamas a partir do telhado altamente inflamável, que acendeu-se, entusiasta, durante uma performance de Henry VIII após 14 anos de existência (1613), para, equilibrando-se sobre a identidade de sucesso abrasador que lhe cabia (ou, quem sabe, sobre os pilares do destino que reservava a Shakespeare a eternidade) reerguer-se, inexorável, passando a ser, em parte, também propriedade de Sir William.
Três séculos depois, o fantasma do The Globe – como o pai do príncipe dinamarquês shakespeariano – paira entre a parede lisa de 1949 e o rosto de Wanamaker, que não hesita perseguir os rastros do passado, descobrir-lhe os detalhes e, pelas mãos do arquiteto Theo Crosby, com a ajuda da arqueologia e da história, dar-lhe à carne e osso novamente.
Triunfante, o The Globe emerge das cinzas mais uma vez, agora em pleno século XX – década de 90 -, vestindo orgulhosamente seu chapéu de material inflamável, como o original – mas protegido por materiais e dispositivos de segurança modernos -, prédio prodígio, único a ter tal telhado após o Grande Fogo de 1666
, que condenou o material tradicional ao ostracismo.
Abre, ao seu redor, uma mesma saia redonda que abrigará, sob céu aberto como uma arena maternal, expectadores outros que os pioneiros, talvez de contentamento equânime.
Inspirado no homônimo do séc. XVI, que oferecia diferentes acomodações para diferentes expectadores por um penny a mais (espetáculo com ou sem chuva?), o The Globe Contemporâneo deixou de lado alguns desconfortos de acomodação originais em sua construção, mas manteve a honra.
Fiel à sua origem, o avatar oferece ao expectador o mundo: abaixo do palco há o inferno de onde emergem os fantasmas universais; acima, o céu povoado não apenas pelo sol, a lua e as estrelas, mas também pelo círculo zodiacal, que tem sua pintura contemplada por deidades como Mercúrio e Apolo, sobre o balcony, e da digníssima Fama.
Entre os extremos, encontra-se o palco de carvalho, a área terrena em que os mortais brincam de Comédia e Tragédia.
Em um dia qualquer de um ano específico – 2009 – rompi caminho pelo ar londrino em busca de Shakespeare pela primeira vez, e dei com a cara na parede. Esta, inexorável, circundava o Universo, que ia, pouco a pouco, preenchendo-se de expectadores ansiosos por testemunhar o amor proibido de dois adolescentes contado por vozes ecoando Shakespeare. Mas não para os meus ouvidos; aos olhos da pontualidade britânica, cheguei atrasada para ver o mundo, pois o período de visitação encerrava-se pela manhã
. Os ingressos da peça, a iniciar-se às duas horas, logo a seguir, meu passaporte para o universo, estavam esgotados; afinal, os indivíduos do lado de dentro ou de fora das paredes compartilhavam uma mesma galáxia e humanidade que se reconhece agora, antes e depois na voz de Willian Shakespeare
.
| Impávido colosso (by Carolina Motta) |
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