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Publicado em: 15/12/2009 |
Entre os maiores tesouros da humanidade, no que se refere às criações intelectuais, a mitologia greco-romana representa um das mais ricas alegorias da cultura dos homens
. Através das histórias de seus deuses, o povo antigo expressava não apenas a sua visão de mundo (da criação, das práticas e leis de convívio), mas também permitia entender suas emoções pela associação com figuras da divindade.
O mundo explicado pelo Olimpo, na sua diversidade de lendas e mitos, sobrevive no mundo contemporâneo graças ao trabalho de historiadores alemães dos séculos XVIII e XIX. O principal deles, Johann Joachim Winckelmann, considerado o pai da história da arte, é responsável por esta retomada dos ideais clássicos (desconsiderando as adaptações do Renascimento e as transformações sofridas no período romano). Mas é talvez com os estudos de pensadores como Nietzsche e Freud que a cultura grega encontrou pertinência e relevância para explicar, compreender e interpretar a natureza e a psique humana.
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| Natureza morta com cabeça de Apolo e luva de borracha, de Giorgio de Chirico. |
Desses escritos se destaca o deus Apolo (Febo), símbolo da harmonia e da beleza, que inspirou conceitos e leituras dos pensadores. Apolo radiante; Deus do sol e da luz, que carrega a carruagem do Sol e faz o dia nascer. Apolo citaredo; Deus das profecias, patrono das artes e da música, que protege as musas e os rapazes. Apolo que atira longe; Deus das curas e também das pragas, cujas flechas traziam mortes e doenças e carregavam a ira divina.
Mas além dessas representações máximas, a figura de Apolo é também fascinante pelas suas pequenas histórias, principalmente nas suas desilusões amorosas. Quem diria que um deus tão belo e poderoso seria tão infeliz no amor. Apesar do grande número de romances e de filhos, Apolo teve sempre finais trágicos para as suas aventuras – tanto em suas relações com as mulheres quanto com os homens. Através destas histórias, na desgraça e na tristeza, Apolo se aproxima da condição humana. E com essas narrativas podemos compreender a realidade e aceitar a alteridade entre os homens.
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| Apolo e Dafne, de Battista Dossi |
DAFNE
O primeira grande paixão de Apolo se chamava Dafne, filha do deus-rio Peneu. Apolo vangloriava-se da vitória sobre a serpente Píton e dizia-se ser o melhor arqueiro do Olimpo. Ao provocar o menino Eros (Cupido), filho de Vênus, que brincava com seu arco e flechas, Apolo foi vitima da vingança do deus do amor que o acertou com uma seta para atrair o amor, ao mesmo tempo em que flechara Dafne com uma seta da indiferença.
Apolo ficou incuravelmente apaixonado por Dafne, mas esta não sentia nada mais do que desprezo por ele. Apolo cantava; e a ninfa não ouvia a sua súplica. Perseguida por Apolo e cansada de tanto fugir, Dafne pediu para Gaia (em outras versões para Peneu, seu pai) que abrisse uma fenda na qual pudesse se esconder. Envolta na terra, Dafne se transformou em uma árvore, o loureiro. Apolo tentou ainda abraçar e beijar os ramos da árvore, mas estas se afastavam dos seus lábios. O loureiro passou então a ser a planta preferida de Apolo, que usava seus ramos como adornos em sua coroa e sua lira.
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O que cantou, porém, com tal paixão Não foi cantado nem sentido em vão. Se foi surda a amada ao canto seu, O canto aos outros homens comoveu. Assim Febo, deixando a ilusória Paixão, no louro pôs a eterna glória. |
| Apolo e Dafne, de Gian Lorenzo Bernini. |
JACINTO
Mais dolorosa ainda foi a paixão de Apolo por Jacinto, um rapaz de beleza extraordinária a quem gostava de fazer companhia. Apolo acompanhava o jovem nas suas atividades de lazer, na pesca e na caça, e também em excursões pelas montanhas. Nestas caminhadas, Apolo chegava a esquecer a sua lira e as suas setas. Mesmo sendo o deus das profecias, Apolo não conseguia antever os finais trágicos de suas aventuras. No caso de Jacinto, a relação só poderia terminar em lamento, devido a impossibilidade do amor divino por um mortal.
Em um desses encontros, Apolo e Jacinto divertiam-se com um jogo de disco; após o deus lançar o disco com muita força no ar, Jacinto correu para apanhá-lo, mas erra a pegada e o disco atinge a sua testa. Há uma outra tradição que conta que foi o vento Bóreas (Zéfiro) – também este apaixonado por Jacinto e enciumado de Apolo - que mudara de curso para acertar o disco em Jacinto. O certo é que de Jacinto jorrava-se sangue; sua cabeça pendia sobre o ombro e se voltava para a terra. Nada podia fazer Apolo para salvar a sua vida
. Do sangue que escorreu para a terra, Apolo fez nascer uma flor e nas suas pétalas escreveu a sua dor: “ai, ai”. Desde então, a cada primavera, o deus revive a memória do seu jovem amado e lembra o seu destino.
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| A morte de Jacinto, de Jean Broc. |
"De fato, meus amores nunca prosperaram; Dafne e Jacinto foram minhas grandes paixões; ela tanto me detestava que se transformar em árvore atraiu-a mais do que minha pessoa; e a ele eu matei com um disco. Nada sobrou-me deles senão restos de suas folhas e flores". (Apolo)
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| Apolo e Jacinto e Ciparissos cantando e tocando, de Aleksandr Andreevich. |
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