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O Sorriso de K.
Kenneth Parcell e o processo de diferenciação: sou em relação àquele que não posso ser.
Guilherme.
Publicado em: 15/10/2009

Quem é o sujeito por detrás do sorriso? Um sorriso doce, ingênuo e inocente, tão cheio de vida e deslumbramento que não permite uma leitura única e fechada. Um feliz, um idiota, um vagabundo, um gênio. O personagem, como nós, é múltiplo, móvel e aberto; assume várias identificações e surpreende a nós e a si mesmo.

Na narrativa da série 30 Rock, o pager Kenneth Parcell representa, em primeiro lugar, o do olhar estrangeiro – o de fora – no poderoso conglomerado de mídias NBC - Universal. Um sujeito caipira, do interior, que vive o seu sonho no grande centro urbano de New York trabalhado a favor da mágica caixa receptora de sons e imagens. Sua tipificação é de um peixe fora d’água, não-familiar aos códigos do meio e constantemente incompreendido pelos seus colegas.

Não há porém qualquer traço de ressentimento ou embaraço quando a sua alteridade é questionada como uma deficiência, pois Kenneth encontra força (como uma crença) na sua criação provinciana para superar os obstáculos. Sua mistura no ambiente social parece, ao mesmo tempo, um aflito, uma urgência e uma comodidade. A multidão pode fazê-lo desaparecer. Sua aguda caracterização (como imagem errante e peculiar) pode se confundir no escopo de tantos outros patinhos feios. Ou pode, como uma dança de break no meio da calçada, parecer fora do lugar e ser altamente expressiva.

Pela perspectiva do personagem, a cidade grande é um deslumbre . As combinações deste caleidoscópio estão além das suas capacidades de compreensão. O passeio dos seus olhos pelos tons de cinza da paisagem urbana, em busca de café ou procurando um endereço, é algo encantador. Um olhar infantil e/ou vagabundo muito mais rico em potência - de sentidos e significações - que a visão condicionada dos culturalmente integrados.

Essa (aparente) ingenuidade do personagem, condicionada em grande parte por processos inconscientes, o qualifica como sujeito deslocado. Nas relações inter-pessoais, “K” (como é amigavelmente chamado) se deixa levar pela inocência e há uma enorme distância entre o mundo real (concreto) e o seu mundo interior . Seu bom-coração o impede de ver as segundas intenções, causando uma série de infortúnios e contratempos no seu ambiente de trabalho. Existe, no seu pensar, uma presença mais constante da imaginação do que queria seus empregadores. Seus olhos mirando um alto longínquo e indefinido, com a cabeça curvada e o real suprimido, indica este lugar particular e sua evocação, invariavelmente, nos convida para uma visita.

E apesar de suas construções interiores, surpreende que há em Kenneth colorações tão variadas de personalidades e identificações. O exemplo representa algumas características de assimilação e contraste próprias da contemporaneidade; onde e quando não há mais identidades estanques, mas processos móveis de identificações. Possivelmente é esta modulação que o insere no social e certamente que o diferencia. “K” rompe com o estereotipo (do caipira, do bobo-feliz) por ser isso e mais; por ser também este e aquele.

O personagem problematiza a questão do estereotipo e das tipificações (uma agradável contribuição do universo ficcional) e demonstra como a personalidade não é redutível a caracterizações. Kenneth é o sujeito da diferenciação; sujeito que se identifica por uma relação de similaridade e diferença. O maravilhoso em Kenneth é justamente a sua despreocupação com o fechamento (da identidade); essa é ilusória, provisória e variável. E o personagem se permite perturbar – seguidamente – pela diferença. É vários, e é ele ao mesmo tempo.

"K" é um representante da "celebração móvel", um sujeito em processo, ambíguo e contraditório. Em apenas um sorriso, como convite para seu mundo interior, o personagem nos conta esta narrativa: "eu sei quem ‘eu’ sou em relação com o ‘o outro’ que eu não posso ser".

Jack McBrayer como Kenneth Ellen Parcell em 30 Rock

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