Do corpo transparente e a permanência indeterminada. |
![]() |
Publicado em: 15/03/2010 |
Cegos olhos de tanto ver. A prevalência do sentido da visão nos domínios da subjetividade contemporânea é resultado direto da proliferação de signos massificados no mundo. Diferente de outros períodos históricos, o ser humano está mais propenso a se identificar com o imaginário e a encontrar sentido na imagem do mundo (mesmo que essa imagem não tenha nenhuma relação com o mundo que representa). O regime do visível implica uma quebra dos paradigmas sociais, políticos e até mesmo sexuais; ver ou tornar-se visível substituem o "ser"
.
Quando tudo é estético, nada mais é estético. Essa é conclusão postulada por Jean Baudrillard sobre o estado das coisas após a orgia. A orgia, define o autor, é o momento explosivo do nosso tempo, da liberação e assunção dos domínios políticos, sexuais, inconscientes, artísticos, midiáticos, etc.; em que todas as representações são possíveis e aceitáveis
. Subsequentemente, a vida cotidiana, assim como o desejo, tornaram-se mercadorias, invadiram as esferas públicas e privadas, coisificaram-se nas representações coletivas de massa. No mundo transformado em espetáculo - principalmente depois de 1968 – as categorias atingem o "mais alto grau de generalização": quando tudo é sexual, nada mais é sexual; quando tudo é político, nada mais é político. Do que se diz que a realização total dessas categorias, terminam por indeterminá-las, ou seja, na proliferação difusa de signos, nada mais é específico
.
Mas também o estereótipo sexual invade tudo. No fetichismo mercadológico, os objetos de desejo podem ser interpretados como fantasmas ou recalques. É um novo tipo de espetáculo
, orquestrado pela mídia como verdadeira relação social: vende-se desejo, vende-se um estilo de vida. Mas na fantasmagoria, os signos precisam ser transmitidos "no limite da transparência e da insignificância" para alcançar o maior público possível. Esvaziados de conteúdo, a mercadoria (imagem-espetáculo do mundo) reorienta hábitos, percepções e sensações. Por fim, é o regime da forma que prevalece, fornecendo prazer aos olhos e modificando afetos
.
Da multiplicidade de formas e do gozo de prazeres, a fantasmagoria sugere a reprodução interna da experiência sensível, ad infinitum, sem diferenciação ou significância (ela só comuta). Esses jogos estésicos, em que nada é definido, propõe um estado de total indeterminação do sujeito. Superexposto a tantas fontes e transparente ao conteúdo, o ser humano torna-se asséptico ao mundo.
Visível no virtual, mas inexiste no real
.
| Compartilhar | ||||
Deixe o seu comentário: |
||||
![]() |
![]() |