A revista literária Arte e Letra. |
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Publicado em: 15/08/2009 |
Black Mask. Precisei ouvir o nome uma única vez para não esquecer; a idéia de um periódico feito apenas de literatura era tão atrativa como é a bolacha feita apenas de recheio quando ainda é possível identificar as primaveras idas apenas com um dígito.
Nunca coloquei a mão em uma-nem na revista, nem na bolacha. A segunda não existia mesmo, mas a primeira era outra história: vivera, longe no tempo e no espaço, mas vivera, feita de estórias noir, suspense e expectativa pela edição seguinte, em especial por conta das estórias que desdobravam-se em capítulos de uma edição para outra.
Anos idos, passei a imaginar como seria a conterrânea, pois não havia (certifiquei-me antes de imaginar). Conclusão difícil de atingir, visto que minha referência-ideal era estrangeiríssima de país e época, respirando um boom cultural - o pulp, o noir, o filme b... - que nada tinha a ver com pinhões ou carnaval. Carecia dela, lamentava, enfim, sua não existência, mas nunca consegui uma definição clara ao tentar imaginar como seria.
Descobri que é linda. Café adentro, dei, por acaso, com a letra A; surpresa com a negação do fato da inexistência, ainda esbocei um mental “será mesmo?”. Mas era. Ali, na estante, em silenciosa pose de estréia, perfilava-se a primeira edição (março/abril/maio 2008) de nossa pioneira revista literária contemporânea.
É linda porque não se exaure – estica os braços ao passado, ao além-fronteira, sempre ao até-então-inacessível e oferece, generosa, em nossa língua-mãe, história por história; às vezes uma tradução inédita de um famoso senhor que perdeu-se no caminho ao Brasil; às vezes uma tradução inédita de um ilustre desconhecido literato; às vezes uma publicação inédita de um Cristóvão Tezza (leia-se aqui, do próprio ou outro conterrâneo também digno de nota); às vezes uma publicação inédita de um misterioso inédito, que deixou sob a porta da editora uma cópia de seu valioso rascunho (pasmem); às vezes uma tradução ou reprodução de uma peça literária assim identificada dignamente, mas que era, no original, o discurso proferido por um autor em um evento determinado.
Sempre com uma primorosa rev/ferência que precede o texto, e conta do seu criador, e da sua tessitura, e da sua idade, e de como penetra nos poros.
É linda porque oferece, em sua generosidade, elementos para desenvolver o olhar, como o professor de quem aprende um instrumento musical. Não se engessa nem torna-se caricata, mas fluida e densa, cedendo à única regra válida para selecionar textos: o olhar literário Dispõe, diante de olho nu ou espéculos, material que relativiza o já lido, incentiva um aprofundamento na relação com o texto, estimula o desejo e a disposição para a diversidade.
É linda porque, em um processo de emboloramento e enrijecimento do movimento da literatura, ela ativa a circulação.
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