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Publicado em: 15/06/2010 |
Sem dentes, talvez, mas sem músculos, jamais... Não no momento em que a escolha se faz pelo appeal visual. Se os discursos explicativos sobre a atração do vampirismo sobre o sapiens sapiens combinam com o mitológico original, não justificam a fama dos contemporâneos... Exagero perdoado em nome da eloqüência, arrisco que, não fosse a manutenção da palavra arcaica como identificador talvez não pudéssemos reconhecê-lo. Fascínio sobre o desconhecido, atração pela dominação, representação de um superior à morte como simbologia de poder, um mais-evoluído na cadeia alimentar, um auto-suficiente liberto das amarras da civilidade, um espaço de projeção do obscuro reprimido no humano... Edward e seus pares, crepusculares ou não, que brilham sob o sol, exibem o bronzeado e, em exemplos mais rasos, ou açucarados, ou qualquer outro etc, exalam mais ética e valores ou questionamentos profundamente morais do que os mortais com quem contracenam – haja vista o saudoso Louis, errando melancólico pelas páginas de Anne Rice que dividia com o megalomaníaco Lestat Rock-n-Roll de Lioncourt – não podiam estar mais distantes disso. O que leva a um silogismo de inversão sobre o que é o realmente assustador: se o horror inumano, reprimido no sujeito, encontrava catarse no vampiro, e se o vampiro encontra-se possível como receptáculo de cavalheirismo, honra, ética e caráter, que aconteceu com o espaço que poderia dar ressonância a isto dentro do sujeito? ![]()
Em relação ao último apelo de similaridade com os originais que poderia ser evocado – a simbologia da sexualidade romantizada na alimentação arterial e suas elocubrações sensoriais afins, escancara-se nas telas a contradição: sangrar o outro como ensejo sexual não é o bastante - o ato sexual precisa estar presente. Logo aí percebe-se um sentido centrifugado: na exaustão da exacerbação visual do ato sexual, explorada até o esvaziamento da saciedade e do querer ocular, por conta do aniquilamento da expectativa, da castração do espaço anterior para o apelo sensual - e pessoal - da imaginação e da despersonalização do ato, exposto e banalizado até a condição de um ato visual de afirmação de auto-imagem adolescente ou pura evasão, que torna o encontro com o outro (e sua tensão emocional antigamente inerente, que incluíam expectativas de auto-conhecimento, satisfação vinculada ao lugar ocupado em um par em movimento de troca e estabelecimento de uma relação com o Outro/Mundo) irrelevante, outro atrativo se torna imprescindível – invertem-se aí a posição do Vampiro como identidade e do ato sexual como a tensão factual entre Um e Outro – o ato sexual é um protagonista que precisa, após o vazio do exagero, de um brinquedo novo para reacender o interesse
. Assim como acontece com a nata social presente em O albergue, a saciedade não se encontra mais ali, e é preciso ir além: além da objetalização sexual, além do limite, além do simulacro da violação para a violação da vida do Outro Objeto, que não mais encontra espaço algum de troca como Outro Sujeito – ainda que seja um objeto adorado em sua posição
.
Se se podem erguer vozes - talvez em uníssono - defendendo a idéia de que o vampiro atual ainda é, sim, uma representação de poder, concordo e contradigo – Seria Nosferatu
, absolutamente poderoso em seu território(absoluto irrefutável na releitura A Sombra do Vampiro) - aplaudido como referência de poder em seu branco miúdo em macilento - cabeça desnuda e pelos errantes pelas orelhas – ao lado dos cabides de moda de True Blood? Ou estará o poder do vampiro livre da morte garantido, na atualidade, pela juventude eterna - e malhada, e livre de rugas, e vigorosa, e de estatura exata e pele de cor homogênea – vista, apregoada na íris comum da humanidade e perseguida como o valor maior da atualidade por uma abundância disforme de gentes? Nesse caso, a vinculação do vampiro a essa imagem é apenas oportunista, e não identitária.
No caso da persistência da idéia da auto-suficiência livre da civilidade, pergunto-me se o traje vampiresco desta estação não é, exatamente, e infelizmente, o arcabouço, o calabouço, a circunscrição do que é hoje a civilidade, do ponto de vista do incluir-se e partilhar regras comuns, já que esta inclusão grupal se faz mais por uma imagem pré-aprovada e menos pela consciência de existência de um bem comum a primar em uma vida não-isolada
.
Nosferatu não era imoral
– não convivia em um grupo como par, dentro do qual estilhaçava as regras de boa convivência ou apunhalava uma prévia confiança pelas costas; era um recluso, alienígena, espécime diverso, que não compartilhava nem da necessidade nem das obrigações morais de outra raça. Não era um ídolo; não representava um exemplo a se equiparar – em juventude, malhação ou poderes, mas um Outro Sombrio, que se alimentava de sangue e, quiçá, desenvolveu nas impossibilidades impostas pela incompatibilidade de sua condição um contra-fascínio com o grupo que lhe serviria de alimento, jogo de ação e reação que não aniquila as implicações da impossibilidade relacional; era um vampiro.
E, na heresia impossível da atualidade, Nosferatu, o vampiro a priori, é destituído de seu lugar, indeferido como avatar, restrito à terceira idade que não tem valia, e encontra a mortalidade.
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